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Guerra fria de divisas ou entendimento cordial? Gestoras internacionais respondem


Os bancos centrais de todo o muno têm dedicado, nos últimos tempos, muito tempo a desmentir o desenvolvimento de outra guerra de divisas global. No entanto, os esforços pela desvalorização do yen e do euro, o fortalecimento do dólar em véspera de uma política monetária mais normalizada nos EUA e a desvalorização do renminbi não fizeram mais do que agitar os mercados e as classes de ativos. Poderá agora falar-se de uma guerra fria de divisas?

Jean Boivin, responsável de análise económica e de mercados do BlackRock Investment Institute (a divisão da BlackRock dedicada a conteúdos de liderança intelectual) explica que, desde 2008, o sentimento dos investidores tem sido tão influente sobre as taxas de câmbio que chegaram a condicionar mais de 50% das flutuações, segundo uma análise interna. Esta dinâmica foi válida até 2014, quando entrou em cena a divergência monetária. Na verdade, para Boivin a divergência tem sido “o motor principal da valorização sustentada do dólar contra o euro e o yen em 2014”. No entanto, constata que no início de 2015 esta valorização parece ter-se consumido de tal modo que o dólar se manteve relativamente flat contra o euro e o yen no ano passado. “Dá ideia que o tema da divergência tem estado muito considerado desde então na valorização das divisas, muito embora as políticas dos bancos centrais tenham continuado a ser divergentes”, refere.

O especialista considera que “o dólar tem margem para subir ainda mais”, tendo por base a evidência histórica de que os ciclos de subida do dólar costumam durar vários anos. O ponto chave está em determinar os factores que empurraram a moeda, partindo de qualquer novidade em torno da política monetária da Fed, do BCE e do BoJ, que têm uma influência direta sobre a divisa (por exemplo, depois da Fed ter reduzido para duas o ritmo de subidas das taxas, o dólar valorizou-se).

“Mas é importante frisar que se espera que a divergência entre políticas se mantenha. É necessário, ainda mais para que aconteça outro impulso sustentado na valorização do dólar”, afirma o representante da BlackRock.  Entre os possíveis “impulsos”, assinala uma hipotética mudança substancial na política monetária, como seria, por exemplo, um avanço mais rápido do que o esperado do ciclo de normalização da Fed, ou a reduzação  da perceção atual sobre os riscos a nível global. Outra hipótese seria voltar a acentuar-se o modo risk off entre os investidores (por causa do Brexit, outra desvalorização do yuan, etc).

O especialista também refere que, em conjunto, as divisas emergentes (em termos comerciais ponderados) perderam um terço do seu valor desde 2013. O ponto chave, neste caso, está em determinar se alcançaram mínimos, ou se há indícios de uma recuperação. “Por um lado as divisas emergentes parecem baratas. Muitas parecem ter sido castigadas de um ponto de vista fundamental, caíndo o suficiente de forma a “remendar” os equilíbrios comerciais e por conta corrente. Uma estabilização dos preços também ajudará as divisas dos países exportadores de petróleo”, indica o especialista. Por outro lado, observa que “a recente recuperação parece, em grande parte, um reflexo da debilidade do dólar, e não da fortaleza dos emergentes”. Neste contexto, Boivin enfatiza o recente ritmo de normalização da Fed como maior factor destabilizador.

Para Jean Boivin, não é tão preocupante, no entanto, a evolução do dólar, comparando com a possibilidade de que a China faça uma grande desvalorização do yuan: “Poderá ser um shock para os emergentes e levaria a um sentimento de risk off nos mercados”. Dito isto, o especialista aclara que não é o cenário base da BlackRock: “Não me parece que as autoridades chinesas queiram este cenário. Na verdade, dedicaram muitos recursos a prevenir uma grande desvalorização”.

O especialista assinala que o perigo não está na política monetária chinesa... mas sim nos fluxos de capital: “Apesar de estes se manterem dentro da China, o risco está contido. Mas se os chineses decidirem retirar o capital do seu país, este êxodo vai colocar mais pressão sobre o yuan, ao serem acelerados os fluxos de saída. Este ciclo pode tornar-se autosuficiente de forma rápida e assim que esse ponto for alcançado, as intenções das autoridades tornam-se irrelevantes”.

Um entendimento cordial?

Tanguy Le Saout, diretor de obrigações europeias da Pioneer Investments, fornece um dado curioso sobre o discurso de Janet Yellen recentemente, no Clube Económico de Nova Iorque. Nele sugeriu estar satisfeita com a nova previsão de duas subidas de taxas de juro este ano. Para Le Saout, o curioso foi que “Yellen empregou as palavras “global”, “estrangeiro” e “dólar” cerca de 22 vezes, no total, comparando com outros discursos anteriores, nos quais enunciou essas palavras entre cinco e sete vezes. “Os mercados interpretaram esse discurso como uma referência à fragilidade das condições económicas globais, mas especialmente da China. Muitos acreditam agora que se alcançou um acordo entre EUA, China e Europa e Japão, na última reunião dos G-20 em Xangai”, afirma o especialista.

Segundo Le Saout, o acordo poderá ter-se desenvolvido nas seguintes condições: “Os EUA abster-se-iam de subir as taxas, o que evitaria que o dólar se valorizasse. Por sua vez, isso permitiria às autoridades chinesas evitar uma depreciação prejudicial do renmimbi, e isso evitaria grande parte da volatilidade do mercado. Por outro lado, considera que as últimas medidas do BCE também poderão encaixar nesta teoria, ao centrarem-se mais em estimular o canal bancário do que a taxa de câmbio. “Por tanto, o Banco do Japão poderá muito bem anunciar um aumento maior do seu programa de estímulos quantitativo, presumivelmente com a expectativa de que o yen se debilite. Isto sugeriria que os grandes bancos centrais admitissem o quão prejudicial pode ser um dólar forte para os mercados globais e para as economias”, conclui.

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