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Green Wishes…


Quando se assiste à discussão sobre a deterioração das dinâmicas económicas globais e elege-se como grandes responsáveis os suspeitos do costume, os temas geopolíticos e as tensões comerciais, ignora-se que os factores que melhor explicam a recente desaceleração económica e que simultaneamente, podem ser o maior catalisador para a longevidade do atual ciclo económico global, são os Green Wishes.

Em primeiro lugar, parece ser intuitivo que o automóvel é o bem de consumo duradouro mais relevante num orçamente familiar, uma vez que, a aquisição de uma casa é um bem de investimento. Por essa razão, o mal-estar na indústria automóvel sempre foi um óptimo indicador económico adiantado de uma recessão, na medida em que, a crise no sector automóvel era um prenúncio das maiores dificuldades das famílias, que em face de um sentimento de incerteza sobre a evolução do ciclo económico, adiavam a decisão da aquisição deste bem duradouro de maior valor. Acresce o facto que, pelo cada vez maior grau de complexidade e de multifuncionalidade que está implícito na produção de um automóvel, este sector interage transversalmente com quase todas as indústrias. Segundo o FMI, os veículos e as suas componentes representaram cerca de 8% das exportações globais de bens em 2018.

Acontece que atualmente, as principais razões que estão subjacentes à reestruturação e ao redimensionamento do mercado automóvel, pouco têm a ver com o agravamento da situação económica do consumidor, mas sim com uma profunda alteração e realinhamento das suas necessidades. De facto, se no início eram as dúvidas sobre a questão da eficiência energética e as alterações tecnológicas dos veículos que racionalmente adiavam as decisões de compra do consumidor, agora as razões são de outra índole. Nos dias que correm, as inquietações incidem sobre a sustentabilidade do planeta e na utilidade de se adquirir este bem duradouro de tão elevado valor. O que sucede é que, já não está somente em causa o adiamento de uma decisão, mas inclusivamente a supressão da necessidade de auferir, ou de deter esse bem.

Em segundo lugar, o recente reposicionamento dos Bancos Centrais significa que não vamos ter rotação de políticas económicas, mas sim convergência de estímulos fiscais e monetários. Os Bancos Centrais estão empenhados em garantir que os Estados, as empresas e as famílias se financiem a taxas de juro muito baixas durante muito tempo. O alcance desta política é de, objectiva e assumidamente, devolver aos Estados a política fiscal, através de uma reestruturação passiva das suas dívidas. Numa altura em que as grandes preocupações das populações, deixaram de ser o emprego ou o terrorismo, para passarem a ser as alterações climáticas e a sustentabilidade do planeta, o emprego da política fiscal ganha um espaço de aceitação transversal nos agentes económicos.

Em terceiro lugar, a “Grande Recessão” provocou grandes clivagens na sociedade, agravando a desigualdade entre classes sociais e países. Contudo, o combate ao populismo ganha novos aliados, que em certa medida se fundem com o poder político, os Bancos Centrais. Esta adoção de novos estímulos monetários vem ao encontro das necessidades de combate à desigualdade, da reconversão de infra-estruturas obsoletas e inadequadas e do desenvolvimento de soluções energéticas sustentáveis, reclamadas por uma opinião pública cada vez mais esclarecida. As implicações sobre a alteração das preocupações dos agentes económicos também vão ter fortes implicações na percepção dos riscos geopolíticos. A “democratização das fontes de energia” é um fator que por si só, pode alterar muito rapidamente a percepção económica e política das diferentes regiões do globo…

Por fim, há que não esquecer, que tanto a perceção regional dos riscos políticos, como o enfoque das estratégias de investimento estão a mudar, onde cada vez mais se premeia o valor sustentável do investimento. Os fluxos e as alocações de capitais tendem a dirigir-se cada vez mais para as regiões e países, onde existe uma melhor perspetiva de desenvolvimento e crescimento económico sustentável. O caráter cada vez mais mandatório dos princípios de investimento responsável (PRI), vai beneficiar a alocação de ativos para as regiões em que os agentes económicos professam essas práticas. Não é por isso difícil imaginar, quais são as regiões do globo que estão mais focadas em solidificar estas novas tendências globais e as que mais vão beneficiar com o processo de “democratização das fontes de energia”.

Em suma, a questão de fundo que está subjacente aos Green Wishes é de aferir corretamente a necessidade de vivermos numa economia responsavelmente sustentável, com políticas de reconversão industrial e de reversão da desigualdade, com vista a incrementar o PIB potencial da economia. Nesse sentido, a atual perspetiva de convergência de ambas as políticas económicas, fiscal e monetária, podem-se constituir em si mesmo, no maior garante da longevidade do atual ciclo económico global.

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