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Gestoras perante uma crise: casos reais sobre como lidaram com condutas indevidas dos seus gestores


No último ano e meio várias gestoras internacionais enfrentaram a crise de confiança dos seus investidores. Desde a GAM ao recente caso da Capital Group, as condutas indevidas de um único gestor pesam na credibilidade de uma marca. Mas a forma de gerir o impacto foi variada. Analisamos como respondeu cada entidade ao seus respetivos escândalos.

1. A dissolução dos absolute return da GAM

No verão de 2018 estalava um escândalo na gestora suíça GAM. A 31 de julho anunciaram de surpresa a suspensão de Tim Haywood, o seu diretor de investimentos para a gama de obrigações de retorno absoluto sem restrições (ARBF), uma das suas estratégias estrela naquele momento, após uma investigação interna em relação a alguns dos seus procedimentos sobre a gestão de riscos. Pesavam dúvidas sobre possíveis conflitos pessoais em alguns dos investimentos de Haywood. A empresa finalmente despediu-o em fevereiro deste ano.

A GAM tomou uma decisão drástica e poucos dias de estalar o caso anunciou que liquidaria por completo toda a gama ARBF que estava sob o comando do gestor. O objetivo, reiterado pela empresa em várias ocasiões, era preservar e assegurar a igualdade entre todos os investidores do fundo. E assim cumpriram. Em setembro arrancaram as primeiras devoluções do património e menos de 12 meses depois  terminaram de liquidar 100% dos ativos.

Assim arrancaram uma série de meses complicados para a empresa. Aos fluxos negativos correspondentes da gama ARBF somaram-se as saídas em outras estratégias da casa. Ainda que não tenha acontecido um êxodo massivo de capital, a crise de confiança pesou na sua cotação em bolsa. Representou uma mudança na sua direção, a entrada de novos acionistas, muito rumores sobre a sua iminente venda e fusão e uma saída relevante de gestores da equipa.

Mas se há algo a destacar do caminho da GAM é o seu esforço por ser transparente e reforçar o seu sistema de controlo de risco com os quais denominam uma terceira linha de defesa. Concretamente, reforçaram a sua política two-signatory para assegurar que os gestores não são diretores de nenhuma entidade de assessoria de investimentos. Também atualizaram as suas políticas internas em relação à execução, alocação e conflitos de interesse, e estabeleceram uma revisão dos registos de compra e venda de ativos.

2. A irremediável iliquidez de Woodford

A resolução da GAM contrasta fortemente com o que estão a viver os investidores de Woodford Funds, a empresa de um dos gestores estrela do Reino Unido, Neil Woodford.

Em maio a empresa anunciou que iria suspender temporariamente o seu fundo bandeira, o LF Woodford Equity Income Fund, em resposta ao forte aumento de reembolsos e com o objetivo de reposicionar os ativos mais ilíquidos da carteira. Segundo foi relevado, o fundo Woodford ultrapassou os limites UCITS em ativos não negociados (10%). E não só uma vez.

O caso Woodford arrastou atores secundários. Hargreaves Lansdown, um dos maiores supermercados de fundos do Reino Unido, tinha o fundo na sua lista de recomendados. Segundo contaram a posteriori, passaram meses a falar com o gestor para que reduzisse a iliquidez do fundo.

O fundo esteve suspenso durante meses até que no início deste mês a Link Asset Services, a entidade terceira que tomou as rédeas, decidiu liquidar a estratégia. Citaram a impossibilidade de realizar uma venda ordenada dos ativos que tinha em carteira e, sobretudo, fazê-lo a preços justos que não acabariam por prejudicar os investidores que optaram por manter os seus investimentos no fundo. Também tomaram a decisão de prescindir de Woodford, que deixou de ser gestor do fundo.

3. As dúvidas de liquidez na H20

Ainda com a memória fresca do que aconteceu a Woodford estalaram as dúvidas sobre a liquidez de vários fundos da gestora H20 (filial da Natixis IM) devido a um artigo no Financial Times. A Morningstar suspendeu o rating do H2O Allegro, um dos afetados, tanto pela parte ilíquida da carteira – pesava um máximo de 9% nos três fundos afetados, o H2O Allegro, o H2O Adagio, e o H2O MultiBonds, -, como também pela idoneidade de algum dos investimentos. E estas obrigações eram emitidas por várias empresas integradas num holding do empresário alemão Lars Windhorst ao mesmo tempo que Bruno Crastes, CEO da H2O AM, tinha entrado no conselho de administração da Tennor Holdings, outra das filiais da holding de Windhorst.

A resposta da gestora foi rápida. A poucos dias depois de anunciar que tinha vendido parte das suas obrigações privadas sem classificação, o que representou reconhecer perdas para os fundos de entre 3% e 7%. Também eliminou temporariamente a comissão de subscrição dos seus fundos. Por sua vez, Bruno Crastes, CEO da gestora, apresentou a sua demissão do conselho da Tennor Holdings.

4. Conflito de interesses pessoal na Capital Group

A última crise de reputação que teve de enfrentar uma entidade foi a Capital Group com um dos seus (agora ex) gestores estrela, Mark Denning. Denning era um dos gestores do Capital Group European Growth and Income Fund (LUX) até ao passado setembro, quando abandonou a empresa americana. Naquela altura não desvendaram os motivos da sua saída, mas há umas semanas um documentário da BBC revelou que realizou investimentos pessoais que violavam o código ético da indústria. Segundo o meio britânico, o gestor tinha investido, em segredo, em empresas nas quais também participavam fundos que geria para a Capital Group. Este tipo de ações não são permitidas na indústria já que representam um conflito de interesses grave ao poder gerar um lucro pessoal para gestor às custas dos seus investidores.

A gestora respondeu rapidamente quando o meio de comunicação britânico os contactou sobre o caso. “Enquanto investigamos tomamos as medidas necessárias de imediato”, asseguram num comunicado oficial na gestora. “Temos um Código Ético e requerimentos de divulgação de investimentos pessoais que eleva os nossos trabalhadores a padrões máximos de conduta”.

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