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Fase tardia do ciclo de ganhos?


Ao favorável período de recuperação e subidas no mercado financeiro, segue-se agora a apreensão. Este sentimento decorre da percepção generalizada de que o mercado se encontra já numa fase tardia do ciclo de ganhos.

Os agentes de mercado continuam a refletir sobre a sustentabilidade da tendência. Este é um exercício que, invariavelmente, passa pela análise de informação histórica disponível e infelizmente enviesada, que se traduz na percepção de que tudo está caro.

A questão que deve, no entanto, ser colocada é a seguinte: quantos foram os ciclos de análise em que ambiciosos números de crescimento e atividade se conciliaram com ausência de pressões inflacionistas e consequente persecução de exacerbadas politicas de estimulo monetário, compondo um cenário transversal aos principais blocos económicos?... A inexistência dos referidos registos conduz a uma certeza que, sendo consensual e intemporal, é muitas vezes esquecida: ciclos temporais diferentes impõem dinâmicas diferentes. Sempre.

Esta evidência suporta perspectivas moderadamente otimistas. Os robustos fundamentais económicos e a ausência de inflação compõem um cenário de predisposição à extensão do movimento de subida dos mercados, em particular das classes de risco.

Próximos meses

Para a segunda metade do ano, mantemos a nossa preferência sobre o mercado acionista. Vários argumentos justificam a expansão dos múltiplos (ganhos de eficiência, tecnologia, crescimento da economia global, baixas taxas de juro…), contrariando os que caracterizam os actuais níveis como irracionais. Contudo, a consciência de que assistiremos a uma correção mantém-nos alerta. Este movimento poderá ser despoletado por diversos factores, conhecidos ou imponderáveis, constituindo os últimos a pior das ameaças. Neste campo, desenvolvimentos políticos, com especial enfoque nos países anglo-saxónicos, deverão condicionar o sentimento: Palavras como Brexit ou Trump continuarão a preencher manchetes. Na Europa, recentes desenvolvimentos no plano politico conduziram à estabilização (ex. vitória de Macron em França). Este enquadramento favorece o investimento no Velho Continente que ainda reflete um apelativo desconto consequente do risco de “supremacia dos movimentos populistas”, por agora afastado. A nossa preferência está, assim, no mercado accionista europeu.

O cenário a traçar nos próximos meses dependerá, em grande medida, da postura dos bancos centrais. Especificamente, da sua agilidade na “inversão” do carácter acomodatício das políticas monetárias que caracterizaram a última década.

Nos EUA, o ciclo de restritividade iniciado com a subida de taxas no final de 2015 tem, desde então, sido conduzido paulatinamente. A Fed acusa, contudo, a pressão dos indicadores económicos, com especial destaque para um mercado de trabalho sobreaquecido. A política monetária norte-americana é por nós assumida como eixo fundamental: a aparente inércia na persecução dos planos de restritividade poderá, a prazo, conduzir à inevitabilidade de decisões de maior alcance e amplitude, potencialmente negativas para o mercado. Este cenário é parcialmente mitigado pela queda do preço do petróleo e derivados. A possibilidade de condução de uma política mais agressiva por parte da FED, aliada à fragilidade do mercado de matérias primas, desencoraja a procura de valor nos mercados emergentes.

Na Europa, as revisões em alta das perspectivas de crescimento para 2018 não inibiram o BCE de manter um discurso manifestamente acomodatício, suportado a prazo pela ausência de pressões inflacionistas. Este facto reforça a nossa preferência pelo mercado accionista Europeu.

No mercado de obrigações, o nosso posicionamento de sub-ponderação mantém-se: as taxas de juro, particularmente nos blocos desenvolvidos, estão em níveis inconsistentes com a fase de expansão económica em curso. Privilegiamos para esta classe uma abordagem de Retorno Absoluto. De entre as oportunidades no mercado de crédito, o Investment Grade merece a nossa preferência.

Estratégias com valor

O reconhecimento da existência de valor, em particular no mercado acionista europeu, não é suficiente para afastar um cenário de correção, com provável ocorrência na segunda metade deste ano. Esta convicção encaminha-nos para uma estratégia mais defensiva, não pela maior ponderação a classes de menor risco (onde, na realidade, reconhecemos menos valor), mas pela flexibilidade e abrangência do universo de investimento. A capacidade de reação às alterações no mercado é factor crucial de seleção. Fundos Mistos merecem a nossa preferência. Também a classe de Alternativos estará em destaque. Fundos Multistrategy e Equity Long/Short assumirão protagonismo.   

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