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Expansão deve continuar em 2018 mas não deve inebriar os investidores


O ano de 2017 foi o primeiro da década em que o crescimento da economia global excedeu, de forma clara, as expectativas. Assistimos a uma expansão sincronizada, suportada por factores diversos, para a qual, na ausência de pressões inflacionistas, as politicas monetárias e orçamentais de caracter acomodatício foram determinantes. A estabilização do preço das matérias primas, a significativa melhoria do sentimento e o consequente aumento da confiança foram outros factores com um contributo significativo.

Este cenário de expansão, aliado a condições de financiamento favoráveis, permite que encararemos este início de  2018 ainda com alguma propensão para a tomada de risco. Este entusiasmo, apesar de fundamentado, não deve inebriar os investidores: existem relevantes sinais de alerta que exigem uma reflexão sobre a aproximação de potenciais movimentos de correção.

A atividade das autoridades monetárias centrais deverá manter-se como eixo central. Após o exacerbado expansionismo levado a cabo ao longo da última década, segue-se a aproximação de um período de um expansionismo menor e posterior restritividade a qual, na ausência de sinais de inflação, se espera muito gradual. No entanto, uma inesperada aceleração dos índices de preços interromperá o atual “ambiente acomodatício” sobre o qual assentam as atuais valorizações.

Na maior economia do mundo, assumindo como válida a previsibilidade de ciclos económicos a partir do comportamento do mercado de obrigações, o potencial de crescimento poderá estar comprometido. Nos Estados Unidos, a curva de rendimentos tem vindo a diminuir a sua inclinação. O diferencial 2-10 anos atingiu mínimos (bear flattening), apenas observados em finais de 2007. Seis décadas de história evidenciam que a convergência de taxas nos referidos prazos precede a inversão da curva de taxa de juro, um cenário tanto mais provável quanto mais restritiva for a postura da Reserva Federal norte-americana. Esta é, possivelmente, evidência de que os Estados Unidos se encontram numa fase tardia do ciclo de crescimento, o que desaconselha a tomada de muito risco no mercado doméstico.

O respeito por este padrão sugere a adopção de uma “estratégia de fim de ciclo”, concretizada na rotação dos investimentos dos Estados Unidos para outros mercados. Tipicamente, em períodos de bear flattening o índice de referencia global MSCI World apresenta melhor performance que o índice norte-americano S&P. Há, ciclicamente, um movimento clássico de migração que se caracteriza na procura de mercados em fases menos adiantadas do ciclo de crescimento.

Neste contexto, a atratividade de regiões como a Europa e a Ásia é potenciada. Esta  preferência pelo Velho Continente, não sendo nova, foi, ao longo do ano de 2017, contrariada pela extraordinária força da moeda única, temida como hipoteca da competitividade das empresas europeias. Esta apreciação do Euro criou uma pressão excessiva, considerado o consenso sobre a preliminar fase do estágio do ciclo de expansão europeu, que concilia ambiciosas estatísticas de crescimento com politicas monetárias declaradamente acomodatícias. Recorde-se que o cumprimento dos planos relativos ao programa de Quantitative Easing e o compromisso de manutenção das taxas de juro no respectivo período são factores críticos de sucesso do investimento na região. Apesar de tudo, em 2018 o mercado accionista europeu conquista a nossa preferência.

No que respeita às praças emergentes, o cepticismo sobre a concretização de um relevante movimento de apreciação da moeda norte-americana a prazo (alimentado em grande medida pala aprovação dos estímulos fiscais por parte do Congresso norte-americano), suporta favoráveis expectativas. A Ásia merece, uma vez mais, a nossa preferência neste bloco, apesar das perspectivas de abrandamento traçadas para economia chinesa. Esta diagnosticada desaceleração impõe uma atenta monitorização mas , com base na informação por agora conhecida, parece não comprometer a atratividade do continente. Nesta região, o mercado accionista japonês merece o nosso particular interesse, reconhecido o sucesso das politicas de Abe, patente nos excelentes resultados divulgados pelas empresas nipónicas. Também aqui, a atividade do Banco Central do Japão será um factor critico de sucesso desta aposta.   

A longevidade do atual ciclo económico, condicionada em primeira mão pela atividade dos bancos centrais e aliada à convicção generalizada de que os ativos financeiros estão caros, promove um novo apreço pelo valor da gestão ativa. Um mercado aparentemente saturado apresenta-se como o mais fértil dos terrenos para a geração de resultados de investimento extraordinários (alfa). 

Enunciada a ação dos bancos centrais como uma critica variável de sucesso, o andamento dos índices de preços dependerá ainda de outros factores, dos quais se destaca o risco de sobreaquecimento da atividade. A atratividade do mercado de ações deverá sempre ser perspectivada em função de sinais que permitam aferir a probabilidade de ocorrência deste temido cenário. Factores exógenos, sejam de caracter político (plano em que a Europa merece especial destaque), geopolítico ou outros, como choques no preço de matérias primas (ex. petróleo), persistem como ameaças a levar seriamente em conta.

Para o mercado de obrigações, 2018 adivinha-se negativo. O ambiente de baixa volatilidade e ampla liquidez inverter-se-á ao ritmo das expectativas de retirada de estímulos monetários, potenciado pelo optimismo revelado na divulgação de indicadores económicos positivos, que beneficiará o mercado de ações em detrimento daquele outro. O racional revelador de valor no mercado accionista europeu tem, sobre o mercado de taxa de juro, o efeito contrário. As obrigações europeias deverão acusar uma forte pressão, particularmente nas classes com melhor qualidade de crédito (Governos Core a Investment Grade).  

O ano de 2018 goza portanto, no seu arranque, de um enquadramento ainda benigno, caracterizado por um crescimento económico sustentado e ampla liquidez. O apetite por classes de risco manter-se-á na ordem do dia, diluindo-se ao sabor da imposição de maior restritividade monetária e da eventual futura evidência de desaceleração da atividade económica.  A normalização do ambiente de taxas de juro compromete, em antecipação, o resultado das estratégias de obrigações mais tradicionais. Em geral é um cenário positivo, mas com potencial limitado, que impõe a seleção e implementação de estratégias capazes de gerir com eficácia um período que se prevê de transição. 

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