Sucessos e fracassos do BCE desde que Mario Draghi pronunciou a sua mais célebre frase


Acaba de fazer cinco anos que o presidente do BCE, Mario Draghi, anunciou que faria “o que fosse necessário” em termos de política monetária na Europa para proteger o Euro. Segundo Philippe Waechter, economista chefe na Natixis AM, filial da Natixis Global AM, o BCE foi o caminho para um ajuste sem sobressaltos na maior crise financeira desde a Segunda Guerra Mundial. “O seu trabalho está praticamente concluído, já que a recuperação do crescimento é sólida. Apenas deve manter a sua política monetária acomodatícia com a finalidade de facilitar os ajustes políticos monetários. O passo seguinte para a construção institucional da zona Euro é político. É hora dos governos assumirem o comando. Esqueceremos os presidentes do BCE, mas Draghi continuará a ser aquele que salvou a formação da Europa”. 

Concorda com David Lafferty, chefe de estratégia na Natixis Global AM, que acredita que “os problemas económicos não podem ser resolvidos do dia para a noite, mas uma ação decisiva pode acalmar os mercados e permitir uma maior margem de manobra para que as ferramentas políticas tenham efeito. Hoje em dia, a zona euro reflete a maior promessa económica ainda antes da crise financeira global em 2008. Se a região está realmente num caminho sustentável para a expansão, em grande parte se deve à liderança de Draghi há cinco anos”. Passados cinco anos desde aquela histórica intervenção em Londres, é momento de fazer um balanço dos sucessos e fracassos da autoridade monetária europeia durante este período de tempo.

Quem fez este exercício foi Stefan Isaacs, diretor adjunto da área de obrigações de retalho da M&G Investments, gestor do M&G European Corporate Bond e cogestor do M&G Optimal Income e do M&G Global Floating Rate High Yield Bond, que destacou os sucessos do BCE, assim como os desafios que persistem na região. Resumiu-os em sete pontos:

1. Em 2012, o custo de financiamento dos países da periferia subiu para níveis insustentáveis. “Ao atuar como credor de última instância, o BCE permitiu que países como Espanha e Itália voltassem a ter acesso ao mercado e, com isso, reduziu o custo de financiamento. Com o passar do tempo, algumas reformas estruturais, a ampliação dos programas monetários acomodatícios e a melhoria do crescimento originaram a queda dos custos de financiamento até níveis semelhantes ou, em alguns casos, inferiores às taxas de crescimento atuais, o que oferece uma possibilidade real de alcançar uma dívida sustentável para essas economias”.

2. As políticas monetárias ultra-acomodatícias penalizaram a poupança, reduziram os custos de serviço da dívida e encorajaram os investidores a assumir mais risco. “Esta situação constituiu o marco para uma melhoria da confiança dos investidores, um aumento nos preços dos ativos e uma recuperação do consumo”, explica.

3. Enquanto houver sinais de que a inflação está a voltar ao nível de estabilidade dos preços, segundo o Banco Central, esta evolução é muito lenta. “É mais do que provável que qualquer normalização da política monetária seja um processo demorado”.

4. Apesar da notável expansão do seu balanço, o BCE viu-se obrigado a expandir o seu programa de flexibilização quantitativa, tanto em termos de duração, como de conteúdo (incluindo dívida corporativa). “Atualmente, o balanço ascende ao nível de quatro mil milhões de euros. Draghi insistiu até à última que qualquer aperto da política monetária se realizaria de forma gradual”.

5. Não obstante, alguns membros do Conselho de Administração da Instituição mostram-se preocupados com as consequências negativas que representa um balanço cada vez maior, as implicações para o sistema bancário, a adição da Zona Euro ao endividamento e, por conseguinte, a capacidade do BCE para retirar a sua postura ultraacomodatícia. Este aspeto está presente no capítulo dos desafios pendentes.

6. A retardada situação económica em Itália e as eleições gerais que se celebram no país em 2018, são boas premissas para uma possível decepção. “Embora os níveis de desemprego na zona euro tenham descido em certa medida, continuam a ser valores elevados, especialmente entre os mais jovens. Apear daqueles que dizem o contrário, o BCE está perfeitamente consciente do que se encontra perto dos limites dos resultados que pode oferecer a política monetária.

7. Apesar de toda a especulação, nenhum país abandonou a zona euro e os mercados parecem agora muito menos preocupados. “Este facto é talvez o parâmetro mais importante, através do qual se pode avaliar a eficácia da política do BCE”.

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