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Estes são os desafios que a indústria de gestão de ativos deve ultrapassar para garantir a sua sobrevivência


Nunca a indústria de gestão de ativos tinha sido tão inovadora como atualmente é. E, provavelmente, nunca gozou de tão boa saúde, graças ao crescimento do património nos anos pós-crise global financeira (fechou 2016 com um património global de 84,9 biliões de dólares). No entanto, o momento atual não é um mar de rosas, uma vez que são várias os temas pendentes que a indústria deve abordar para manter o seu crescimento... e a sua rentabilidade. A Amundi elaborou um white paper onde analisa em profundidade todos estes desafios, abaixo resumidos por Philippe Ithurbide, responsável global de análise da entidade.

#1 Como continuar a ser rentável num mundo de baixas taxas

O primeiro desafio é uma alteração do ambiente no qual a indústria desenvolve a sua atividade, marcado por um aumento da competitividade em ganhar escala e enfrentar novos players enquanto que se assiste a um aumento das restrições regulatórias e persistem as baixas taxas de juro. Existem também mudanças estruturais macro em cima da mesa: a queda da taxa de população ativa e da produtividade; o aumento da desigualdade; a queda do rendimento real disponível e o impacto do peso da dívida sobre as finanças públicas e privadas. “Se olharmos para os indicadores de dívida privada, pública ou total dependendo do país, a desalavancagem ainda está por acontecer”, ressalva Iturbide. “A estabilidade macroeconómica de tal regime requer taxas baixas, e isto deverá prolongar-se por algum tempo, porque estas alterações são mais estruturais do que cíclicos”, acrescenta.

O panorama fica completo com algumas novidades: o final das políticas acomodatícias, o “lower for longer", e grande desinflação; a difícil sustentabilidade de algumas taxas em mínimos históricos e a falta de clareza no debate sobre o aumento da produtividade.

Não obstante, Ithurbide recorda que muitas gestoras tiveram que se adaptar a estes tempos de mudança. E dá alguns exemplos: a revisão de conceitos como “ativos livres de risco”; a redefinição do conceito de diversificação de carteiras; a revisão da redução de comissões e um maior foco sobre os serviços de consultoria. Ao mesmo tempo, os investidores têm vindo a fazer algumas concessões para poder obter maiores retornos: mais risco de crédito, mais alavancagem, mais ativos que proporcionem retornos com baixa volatilidade ou uma gestão mais ativa da curva.

#2 Como rentabilizar as mega tendências

O segundo grande desafio é o surgimento de mega tendências (alterações demográficas, alterações climáticas, revolução tecnológica, investimento socialmente responsável...) e, mais concretamente, como pode a indústria fazer negócio com estas. “Investir em mega tendências tem várias vantagens: é uma boa maneira de investir nos vencedores do futuro, de se afastar dos temas da estagflação secular e de ganhar uma maior exposição ao crescimento secular, ao reduzir a exposição a factores puramente cíclicos e rentabilizando as abordagens temáticas”, diz o responsável.

As duas grandes tendências às quais a Amundi está a prestar mais atenção são as alterações climáticas e Investimento Socialmente Responsável (ISR). Relativamente à primeira, o especialista destaca as dificuldades que um tema “bastante técnico” enfrenta para desenvolver ideias de investimento concretas e atrair capital. O que a Amundi fez foi alcançar um acordo com a empresa energética EDF, segundo o qual a EDF seleciona os projetos energéticos mais promissores de acordo com uma série de critérios técnicos e a Amundi proporciona o financiamento através da sua rede de grandes investidores institucionais internacionais que queiram diversificar melhor as suas carteiras e obter exposição a esta mega tendência.

O modus operandi da Amundi em matéria de ISR consiste em ajudar os clientes a definir a sua política ISR, a estabelecer o seu universo de investimento, calibrar e monitorizar os riscos assumidos, construir as suas carteiras – aplicando filtros de exclusão e seleção Best in Class – e na preparação de relatórios posteriores. Além disto, a gestora auxilia os seus clientes em aspetos como políticas de compromisso, gestão de aspetos controversos e na comunicação sobre impact investing.

#3 O negócio da disrupção

Ithurbide coloca o terceiro desafio como resposta à seguinte pergunta: “Como poderão transformar, ou não, o que apelidamos de Watsonização (desenvolvimento de computação cognitiva), Googlização (a disponibilidade de um grande volume de dados), Amazonização (o poder das plataformas), Uberização (nascimento de novos modelos de negócio) e Twitterização (realizar negócios num mundo cada vez mais conectado e colaborativo) a indústria de gestão de ativos?”.

O profissional destaca que “a gestão de ativos já está no negócio da disrupção”, no sentido em que estas alterações não passam despercebidas para as gestoras, e muitas delas estão a investir no desenvolvimento de tecnologias para se adaptarem. Como tal, o responsável prevê que “a gestão de carteiras será redefinida em grande parte como computação cognitiva e as análises resultantes terão impacto sobre os modelos de negócio”, enquanto que o negócio da distribuição será afetado “pelas estratégias centradas nos dados e nas plataformas online”.

Ihturbide acrescenta que “o big data oferecerá às empresas de gestão novas oportunidades para melhorar os conhecimentos dos investidores, alcançar um compromisso mais profundo com os clientes e compreender as suas preferências, em constante evolução”. Acrescenta, ainda, que “as empresas que tenham a capacidade de desenvolver infraestruturas e investir em inovação também terão vantagens competitivas que serão difíceis de superar”.

Finalmente, o especialista refere que, à medida que a atividade de investimento seja cada vez mais guiada pelo processamento de dados, “devido aos requisitos regulatórios e do investidor, a qualidade das transações e das plataformas de trading serão um fator competitivo cada vez mais importante”. Neste âmbito, Ithurbide destaca que a tecnologia blockchain “tornará possível entrar automaticamente em qualquer transação online e proporcionar transparência total em todas as transações”.

A partir desta extensa análise, o responsável chega à seguinte conclusão: “Para continuarem a ser competitivas e rentabilizar as novas oportunidades, as empresas de gestão de ativos devem pensar mais nos seus modelos de negócio e ir mais além de simples melhorias”. Para o profissional, a adaptação “requer uma nova forma de pensar, um ajuste consciente da mentalidade e uma liderança efetiva a nível corporativo e da indústria”.

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