Esta semana vou estar de olho... em taxas de juro negativas nos EUA


(O contributo desta semana é da autoria de João Guilherme de Almeida, analista de mercado de Banco Atlântico Europa.)

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A taxa de desemprego nos EUA superou em abril os 14,7%, equivalente a mais de 23 milhões de pessoas desempregadas, o valor mais alto já registado. Perspetivas do FMI estimam que a economia Norte-Americana contraia 3% em 2020, numa fase em que o país já se tornou o centro da pandemia. Com um duplo mandato focado em controlar quer a inflação, quer o desemprego, não admira que a Fed (Federal Reserve) tenha recorrido a todos os seus instrumentos para suportar a economia, entre eles a compra de treasuries (leia-se um empréstimo direto ao Governo) no valor de $500 biliões e pelo menos $200 biliões para compra de outros títulos de dívida colateralizada. O total de ativos detidos pela Fed superou já os 6,6 biliões de dólares e não mostra sinais de abrandamento.

Estas “Open Market Operations” são o mecanismo através do qual a Fed consegue influenciar a taxa de fed funds – taxa que traduz a facilidade que o sistema interbancário tem em alocar e movimentar reservas. Significa então que podemos recorrer a esta taxa e aos futuros subjacentes, para inferir as expetativas do mercado para com a intervenção da Fed na evolução da economia. Os contratos de futuros têm previsto muitas vezes as acções da Fed antecipadamente (por vezes até forçando a mão da Fed), embora o presidente da Fed já tenha indicado que não comtempla taxas negativas nos EUA.

Porém, começa-se agora a verificar a dissonância: com o mercado acionista a recuperar ao longo do último mês e estímulos monetários e fiscais garantidos, numa fase dominada por notícias e planos para a reabertura da economia, seria expetável o retorno ao normal das taxas de juro. Porém, os contratos indicam que o mercado prevê taxas de juro negativas até junho de 2021.

As taxas de juro estão a tentar acompanhar a descida na taxa de inflação - nos EUA, o PPI (Producer Price Index) de abril caiu 1,3%, face a uma queda expectada de 0,5% e o CPI (Consumer Price Index) apresentou a maior queda desde 2008 – 0,8%, após ter caído 0,4% em março.

A combinação de taxas de juro nominais próximas de zero ou mesmo negativas com um cenário de deflação implicam taxas reais cada vez mais altas, o que pode ser bastante prejudicial a uma economia confrontada com a maior recessão das nossas vidas. Assim sendo fica a questão:

Mercado vs Fed, qual terá razão? O futuro dirá.

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