ESG poderá ser o tema que define a próxima década


Observando os últimos 30 anos numa perspetiva de investimento, cada década pode ser definida por um acrónimo predominante. Na década de 1990 tivemos as TMT1, com a bolha das Dot-com a ditar um crescimento fora do normal dos setores ligados à internet. Na década de 2000 tivemos os BRIC2, encapsulando a crescente importância dos mercados emergentes e neste ciclo as FAANG3 como sinónimo de disrupção e de novas tecnologias. 

Foto_Perfil_-_Jo_o_UrbanoOlhando para o futuro, são elevadas as probabilidades de que o ESG (acrónimo em inglês para Environmental, Social and Governance) possa constituir-se no acrónimo da próxima década. À medida que as tendências sociais geram mudanças no comportamento dos consumidores, empresas e investidores têm apoios do poder regulatório à boleia de medidas expansionistas por parte dos governos. Embora a mudança climática e a descarbonização dominem hoje grande parte da discussão, é expectável que o diálogo se estenda ao longo do tempo para abranger uma gama mais ampla de tópicos sob a bandeira de questões ambientais, sociais e de governo societário (ESG).

A contribuir fortemente para a ideia de que o ESG poderá figurar como um tema estruturante na próxima década, está o Covid-19. A crise do Coronavírus poderá entrar na história como a primeira crise de sustentabilidade do século XXI, com as correntes que a originaram propícias a uma mudança de paradigma na arena da ação climática. Isto porque, pese embora os dois fenómenos exibam origens distintas e não estejam diretamente relacionados, uma recuperação em direção a uma economia compatível com o meio ambiente e com maior sustentabilidade ajudará, não só a abordar a atual crise de saúde e a resposta económica à mesma, como na prevenção de uma próxima crise.

A forte chamada de atenção fez eco no poder decisório, com a União Europeia a colocar o Pacto Ecológico no cerne do pacote de recuperação para esta crise, estimulando a economia e combatendo as alterações climáticas em simultâneo. A proposta da Comissão Europeia de um plano de estímulo económico no valor de 750 mil milhões de euros, a par da revisão da proposta do orçamento de longo prazo da UE para 2021-2027, pretende atenuar o impacto da pandemia e viabilizar um futuro mais sustentável para o velho continente.

O esforço público em torno da promoção da sustentabilidade nos investimentos não tem liderado o investimento privado, mas deu neste último ano passos importantes, com a regulação a ser outro dos agentes de mudança. A nova taxonomia da UE vai exigir que os fundos de investimento na Europa relatem a percentagem de ativos que são investidos em atividades “verdes”. A nova regulação será um passo importante para mitigar algumas das críticas apontadas ao investimento sustentável na sua forma atual, nomeadamente a dispersão de conceitos e metodologias, ao classificar uma lista completa do que são atividades económicas sustentáveis. A taxonomia irá abranger todos os fundos criados ou distribuídos na Europa, sendo possível, de um modo uniforme, conhecer e comparar a percentagem do fundo relativa a atividades sustentáveis.

Todo este esforço conjunto contribuiu para um acelerar do crescimento do investimento sustentável. Recorrendo à Morningstar e à sua definição de investimento sustentável, o volume global do mercado ESG é, atualmente, de 1,3 triliões de dólares, tendo crescido mais de 35% nos últimos 3 anos. Luxemburgo, França e EUA são os três principais domicílios para estes fundos, sendo que a Europa é com grande margem a principal geografia.

No início de 2019, o momentum em torno do investimento ESG nunca havia sido tão elevado, levando vários investidores a colocarem a questão se este movimento teria semelhanças ao de um bull market que se desvaneceria num cenário de recessão. Avançando até 2020, a resposta é que não só este momentum continuou, como acelerou, com o total de entradas para fundos ESG no último ano a totalizar cerca de 200 mil milhões de dólares, dos quais cerca de 100 mil milhões em Equity, num crescimento anual de 18%, que compara com cerca de 500 mil milhões de dólares de saídas de fundos de investimento ativos em Equity (-4,0% desde o início de 2019), segundo dados da Morningstar.

Uma das razões para a aceleração desta tendência, em plena crise do Covid-19, é a convicção que os portfólios que integrem fatores de sustentabilidade possam fornecer melhores retornos ajustados pelo risco para os investidores. E neste contexto o aumento da volatilidade recente exacerbou este efeito. De acordo com a Morgan Stanley, durante anos de elevada turbulência nos mercados financeiros como 2008, 2009, 2015 e 2018 o desvio negativo dos fundos sustentáveis foi significativamente menor que o dos fundos tradicionais. Os índices ESG da MSCI ajudam a ilustrar a performance superior do investimento sustentável, com os MSCI ESG Leaders nos últimos 12 meses, tanto na Europa como nos EUA, a superarem os respetivos índices de referência em 3,7% e 0,8%, respetivamente. Durante o mesmo período, o MSCI World ESG Leaders superou o MSCI World em 0,7%.

[1] TMT – Tecnologia, Media e Telecomunicações.

[1] BRIC – Brasil, Rússia, India e China.

[1] FAANG – Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google.

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