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Entraves ao roteiro de retirada de estímulos do BCE


Agora sim: a normalização monetária chegou à Europa, e continuará por algum tempo. Embora Mario Draghi tenha transmitido uma mensagem semelhante às expectativas do mercado, esta acabou por desiludir, uma vez que se esperava um discurso mais hawkish. Agora, com o passar das horas, as gestoras internacionais focam-se nas brechas deixadas pelo banco central na sua comunicação, apesar do seu esforço para que esta fosse impecável.

Assim, apesar do anúncio de que o volume de compras será reduzido para 30 mil milhões de euros de janeiro a setembro de 2018, por exemplo, a economista da Groupama AM, Maryse Pogodziski, afirma que “todas as opções continuam em aberto”. É necessário recordar que o próprio BCE colocou um disclaimer na sua mensagem, com algumas clarificações sobre a duração do programa, que poderá ir “para além de setembro, caso seja necessário”. A postura da economista é que “a opção de passar de 30 mil milhões de euros para zero diretamente no final de setembro é fazível”. Dito isto, destaca que, objetivamente, “o BCE alargará o seu QE se se verificar uma apreciação significativa por parte do euro e uma alteração na trajetória da inflação em sentido negativo”. Recorda, ainda, que se o alargar do programa para além de setembro do próximo ano se verificar, “o BCE terá que enfrentar as limitações da profundidade dos mercados”.

Por outro lado, a especialista recorda que o BCE explicou quando começará a retirada de estímulos, mas como, foi parcamente explicado, referindo que manterá o reinvestimento na maturidade e continuará a providenciar liquidez aos bancos. Sobre este aspeto, indica que, em primeiro lugar, a autoridade publicará, a partir de 6 de novembro, um calendário sobre os montantes devidos a 12 meses por ano. “A repartição das transações nos programas de reinvestimento manter-se-á em linhas em gerais; até aqui, o BCE mostrava-se bastante tolerante na aplicação da regra de repartição e, portanto, podemos esperar um certo grau de flexibilidade na distribuição dos ditos reinvestimentos se o BCE achar necessário”, conclui.

Andrew Mulliner, gestor da Janus Henderson, foca-se no tom da semântica aplicada por Draghi, referindo que este “declarou a crescente confiança do BCE na previsão do crescimento para a Europa, mas em geral continua a ser um banco central que não tem qualquer desejo de ir mais além na curva”.

Para Mulliner, tendo em conta tudo aquilo que foi exposto na última reunião da instituição – incluindo a insistência de Draghi em manter uma postura acomodatícia para não arruinar a recuperação -, “O BCE continua a ser na sua essência uma instituição de pulso firme (o fantasma da subida de taxas de Trichet em 2011 continua a assombrar todos aqueles que a enfrentaram)”, pelo que considera que “a resposta do mercado com yields em queda e uma ligeira depreciação do euro faz sentido”.

Adrian Hilton, diretor de divisas da Columbia Threadneedle Investments, proporciona outro detalhe que corrobora a visão do especialista da Janus Henderson: “O facto de Draghi ter admitido que certos membros do conselho se opõem a um programa de compra de ativos com final indefinido é um sinal de que o desacordo sobre a política monetária do BCE em 2018 irá continuar a aumentar”.

Philippe Waechter, economista-chefe da NAM (filial da Natixis Global AM), afirma que o BCE se cingirá ao precedente estabelecido pela Fed, de forma a que evitará “surpreender os investidores com as suas decisões”. Isto explica o facto da redução do programa ter sido praticamente antecipada e refletida no preço por parte dos mercados, graças ao trabalho da comunicação realizada pelo BCE e pelos membros do seu Conselho nas semanas anteriores.

Como tal, para Wachter a surpresa deixada pela reunião da passada quinta-feira foi “a estabilidade da forward guidance”, ao conseguir que “o nível de compras do programa de aquisição de ativos parecesse um ajuste técnico e não uma alteração na política monetária”. A conclusão do economista é de que “o equilíbrio do poder ainda está do lado do BCE e isto não se alterará nos próximos meses; ainda dependemos daquilo que eles querem dizer, e não o contrário”.

“Draghi guardou para si mesmo uma opção de segurança, para arrancar de novo com a máquina de imprimir dinheiro se as coisas piorarem na zona euro em termos macro, pelo que não parece que seja provável uma subida de taxas, pelo menos durante mais 12 meses”, afirma Paul Hatfield, diretor global de investimentos da Alcentra (BNY Mellon IM). O especialista prevê que as bunds beneficiem desta alteração na política, podendo esperar-se um ligeiro enfraquecimento do euro, mas nada mais.

“O anúncio em si mesmo terá um impacto limitado sobre os mercados financeiros. No entanto, poderá marcar um ponto de viragem tangível para o euro e para a rentabilidade dos títulos da zona euro”, refere Vincent Juvyns, da J.P. Morgan Asset Management.

Mais uma vez, a chave está na inflação

Se os investidores quiserem mais pistas sobre o rumo futuro da política monetária, terão, uma vez mais, que continuar a vigiar a inflação. Marilyn Watson, responsável de estratégia global de obrigações baseada em fundamentais da BlackRock, trata de recordar que não só a inflação se encontra atualmente muito abaixo do objetivo "mas bastante próxima dos 2%” do BCE, como também “as previsões do próprio BCE sobre a inflação se situam apenas nos 1,5% ou abaixo para o final de 2019”.

“A previsão da inflação é mais incerta”, corrobora Azad Zangana, economista da Schroders. Este acrescenta que, ainda que a inflação subjacente tenha melhorado moderadamente desde o início de 2017, “ainda tem que mostrar mais sinais convincentes de uma tendência de subida sustentável”. Na opinião do especialista, “isto suporta a postura do BCE de que deverá continuar com os estímulos, embora a uma escala inferior”. De facto, a própria expectativa do especialista é de que o BCE “provavelmente estenda o QE outra vez para o ano que vem, para terminar com o programa a dezembro de 2018 e abrir o caminho para um subida de taxas de juro na primeira metade de 2019”.

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