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“Enquanto Portugal não regressar aos mercados, o País estará proscrito do radar internacional”


Como acredita que vai evoluir o negócio da gestão de patrimónios nos próximos meses?

A gestão de patrimónios, a exemplo do restante sector financeiro, foi especialmente penalizada desde o pedido de resgate financeiro em 2011. E, de acordo com dados oficiais da APFIPP e da CMVM, entre o final de 2010 e o final de 2011, registou-se uma redução de quase 20% no volume de activos sob gestão.

Por isso, enquanto a República Portuguesa permanecer excluída dos mercados financeiros internacionais, como está previsto que aconteça até meados de 2013, uma data que aliás me parece prematura – na medida em que se afigura cada vez mais provável a necessidade de um segundo pacote de ajuda –, não se antecipa uma melhoria significativa no negócio das gestoras de patrimónios em Portugal.

O que é que os clientes procuram e se houve uma alteração nas exigências nos últimos quatro, cinco anos?

Os clientes particulares em Portugal são tradicionalmente conservadores e procuram essencialmente produtos financeiros do mercado monetário ou produtos financeiros de renda fixa. Ou seja, persiste uma grande aversão ao risco, naturalmente agravada pela conjuntura macroeconómica.

Quanto aos clientes institucionais em Portugal, estes são um quase exclusivo das grandes gestoras, nomeadamente das que são detidas por bancos. Entre as gestoras de menor dimensão, haverá um ou outro caso onde exista um modelo de negócio suportado na existência de clientes institucionais, nomeadamente institucionais não financeiros, porém, serão a excepção. Além disso, desde o pedido de resgate da República Portuguesa, tem-se assistido a uma saída de institucionais estrangeiros do mercado nacional de capitais, como se deduz das leituras dos agregados monetários.

Há alguma alteração legal ou tributária que o preocupe mais num futuro próximo? Se sim, qual?

A principal alteração diz respeito ao agravamento geral das taxas de imposto nos últimos anos, em especial das taxas liberatórias sobre juros e mais valias, que, em face das restrições orçamentais sentidas um pouco por todo o mundo, representa uma tendência que dificilmente se inverterá num futuro próximo. Neste aspecto, a introdução de uma taxa universal sobre transacções bolsistas, apesar de tudo pouco provável, seria também particularmente negativo para o sector.

Acredita que vão chegar ao mercado português mais entidades internacionais a oferecer serviços a clientes de elevados patrimónios?

Enquanto Portugal não regressar aos mercados internacionais, o País estará proscrito do radar internacional.

Considera que a actual situação da banca portuguesa tem levado/ou poderá levar a que estes clientes optem por entidades independentes e/ou estrangeiras?

Não. Poderá levar a que os clientes optem por diferentes jurisdições para sediar os seus patrimónios – devido a questões de segurança institucional e não tanto por motivos de optimização fiscal – e que optem por produtos financeiros denominados em moeda que não o euro. Agora, tendo em conta que a situação da banca portuguesa em pouco difere dos problemas que um pouco por toda a Europa se sentem, e atendendo também ao facto de os bancos portugueses também possuírem estruturas próprias no estrangeiro, não creio que questões de nacionalidade da casa mãe afectem os bancos portugueses.  

Quais são os principais desafios para a actividade?

Em Portugal, o grande desafio é a ausência de liquidez disponível para o investimento. Regressando aos agregados monetários publicados pelo Banco de Portugal, regista-se um decréscimo nos indicadores internos (M1, M2 e M3), em contra ciclo com o crescimento registado nos mesmos indicadores para a zona euro na sua totalidade. Ou seja, há efectivamente menos dinheiro em Portugal e esta realidade reflecte-se na actividade das gestoras, sobretudo das que estão vocacionadas para o mercado interno.

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