Emergentes: os BRIC no caminho positivo


TRIBUNA de Craig Botham, economista de mercados emergentes da Schroders.

Na Schroders revimos as nossas previsões de crescimento económico nos mercados emergentes este trimestre, em concreto relativamente à inflação. Revimos em baixa as nossas estimativas neste campo devido a uma perspetiva mais favorável do preço do petróleo e uma melhoria da dinâmica doméstica. Explicamos a nossa visão para as principais economias emergentes (os BRIC) em seguida:

bric

China: a trégua comercial convida ao otimismo

Na China, a guerra comercial com os Estados Unidos pressagiava um panorama menos animador para os investimentos no gigante asiático, mas revimos em alta as nossas previsões de crescimento do país para este ano e para o seguinte já que consideramos que as taxas se manterão nos níveis atuais e que se alcançará uma trégua na disputa comercial. Isto melhora as perspetivas.

Igualmente, não devemos perder de vista que a economia continua empenhada em experimentar um abrandamento continuado, com ou sem guerra comercial, e prevê-se que a atividade subjacente real mostre uma maior debilidade que o PIB geral. Além disso, a Assembleia Popular Nacional da China não anunciou um grande aumento do investimento total em infraestruturas. O organismo deu a conhecer um novo objetivo de crescimento de entre 6% e 6,5%, o que indica que seguramente sejam adotadas medidas políticas para manter o crescimento acima dos 6% este ano, ainda que a aplicação de medidas excessivamente contundentes está descartada.

Continuamos a considerar que a margem de manobra política é limitada, pelo que não assistimos à implantação de pacotes de incentivos, como foi o caso durante recessões anteriores. O banco central continuará a flexibilizar a sua política monetária, mas dado que a estabilidade da divisa está a debater-se no contexto das negociações comerciais com os EUA, a margem para uma maior depreciação do yuan (consequência da flexibilização monetária) é muito menor.

Brasil: espera-se o impulso de Bolsonaro mas cuidado com os riscos políticos

No Brasil, o presidente Bolsonaro assumiu oficialmente as suas funções e a confiança na economia situa-se em níveis elevados, o que constitui um  indício prometedor para a atividade económica. O ânimo dos investidores será acentuado pela proposta para reformar as pensões, apresentada pela Administração, que é mais ambiciosa do que muitos estavam à espera. O ministro da Economia, Paulo Guedes, conta com carta branca neste sentido, e isso constitui um bom presságio.

Por outro lado, na nossa opinião, existe um risco considerável das reformas serem atrasadas e de que, em última instância, se tornem menos contundentes de que o mercado poderia esperar. Não obstante, a nossa hipótese principal já contemplava esta possibilidade, pelo que as nossas perspetivas para o crescimento e para a inflação não são afetadas. Revimos ligeiramente em baixa a nossa previsão de crescimento para 2019, dado que o crescimento do último trimestre de 2018 foi algo mais fraco do que o esperado e caiu 1,1% em termos interanuais.

Numa nota mais positiva, também revimos em baixa a inflação face à descida do preço do petróleo e o reduzido nível que apresentam os dados de inflação geral de forma sustentada, o que nos leva a prever que o banco central adotará uma abordagem mais acomodatícia. À data de hoje, não esperamos que se levem a cabo subidas de taxas este ano, face à nossa previsão anterior de uma subida de taxas de 50 pontos base. Esta conjuntura proporciona algum apoio adicional para o crescimento em 2020.

Índia:  trajetória da inflação é mais favorável, mas as eleições são chave

Na Índia, o crescimento do crédito está a aumentar, ainda que de forma muito gradual, e o novo governador do banco central adotou um tom claramente acomodatício, o que foi fonte de polémicas mais uma vez. Tendo isso em conta, prevemos outra descida das taxas de juro este ano, muito provavelmente antes das eleições gerais que se celebrarão em abril e maio.

O desenlace destes comícios continua a ser incerto: a nossa hipótese de referência de escassa convicção prevê uma vitória de Modi, mas com uma maioria menos folgada, o que representa uma ameaça para a agenda de reformas. Nestes momentos, a aplicação de reformas de grande pujança torna-se extremamente improvável, e a Índia poderá ter que se conformar com uma mudança gradual em vez de uma mudança de tendência.

Rússia: o petróleo impactará a divisa, mas não o crescimento

A redução do preço do crude prejudica claramente a Rússia, mas afortunadamente para as perspetivas de crescimento do país, o gasto orçamentado prevê que o preço do barril de Brent alcançará um ponto de equilíbrio de 43 dólares em 2019 (situava-se perto dos 65 dólares a 8 de março de 2019).

Os efeitos deixarão de ser sentidos em grande medida no plano da divisa, o que se traduz numa das previsões de inflação mais elevadas para a Rússia e na necessidade de que o banco central suba as taxas. O aumento do IVA no início de 2019 teve menos efeitos inflacionistas do que se temia. A subida do IVA faz parte do último plano económico apresentado no novo decreto de maio. O aumento de impostos cimenta as bases para um aumento do investimento e para um aumento do crescimento em 2020. Assim, existe um risco alto para o crescimento devido à trégua na guerra comercial, que deverá impulsionar a atividade global e, com ela, possivelmente os preços do petróleo. No plano dos riscos de queda, cabe destacar que a ameaça das sanções não remeteu por completo.

A conclusão após rever a nossa visão dos mercados emergentes, em concreto das suas principais economias, os BRIC, matem-nos otimistas com estes mercados já que os fatores internos superariam os problemas globais em 2020 e continuarão a ser fonte de oportunidades atrativas de investimento.

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