Em Contraluz não se vê que o Cheque foi passado em Branco...


Existem um conjunto de temas nos mercados financeiros que levantam algumas incertezas e suscitam alguma apreensão. Diria mesmo seis temas que estamos constantemente a monitorizar.

O primeiro prende-se com a pandemia, na medida em que, a subida do número de novos casos conjuntamente com o regresso às aulas, é um fator de incerteza sobre os riscos de reversão das medidas de desconfinamento.

Um segundo ponto advém das eleições americanas e da expetativa que mais de 1/3 dos votos sejam enviados por correio, o que com atrasos no correio pode tornar a noite e o pós eleições, num período particularmente animado...

Um terceiro ponto, que advém do excesso de concentração dos retornos em que apenas 1% das empresa que compõem o índice bolsista do S&P500, (Apple, Amazon, Microsoft, Facebook e Google/Alphabet). Estas cinco companhias detêm um peso de 23% no índice e justificam uma subida do mesmo de cerca de 10%. Em contrapartida, os restantes 99% das companhias que representam cerca de 77% do índice S&P500, são responsáveis em média por uma queda de cerca de -7% deste índice.

Um quarto ponto, relacionado com o impasse das negociações do novo programa de estímulos nos EUA, o CARE II, onde um impasse prolongado pode abalar a confiança dos agentes e de provocar uma maior cristalização dos danos colaterais que estão subjacentes aos layoffs e às moratórias.

E por fim, acresce um quinto e um sexto pontos que se prendem como o sempre fastidioso Brexit e com as belicosas relações entre a China e os EUA.

No entanto e à luz do que tem ocorrido nas últimas semanas em matéria de avanços científicos, da retoma de economia global e do enfoque nas políticas monetária e fiscal, temos que perceber que estes seis temas aqui enunciados, podem estar cada vez mais em contraluz...

De facto, os estímulos fiscais e monetárias são cegos e parecem não querer ter fim, a linha de tempo da pandemia está-se a encurtar e a recuperação económica pode ser mais rápida, mais transversal e mais sustentada, do que há dois meses se antecipava. Mas provavelmente o mais insólito e estruturante acontecimento que ocorreu nas últimas semanas, é  que ultrapassámos o ponto de não retorno em matéria de política monetária.

Depois da Reserva Federal Americana (FED) assumir a assimetria dos seus objetivos de pleno emprego e inflação, a partir de agora nada será o mesmo, porque na prática o mais importante Banco Central do planeta, assume-se impotente para resolver um pretenso fenómeno monetário, a deflação.

É curioso que a espiral deflacionista tenha sido um fenómeno colateral provocado, pelos Bancos Centrais, que acomodaram tudo e todos, estimulando implicitamente o endividamento e consequentemente sacrificando ainda mais o consumo futuro, numa sociedade envelhecida e desigual.

A dívida nos países desenvolvidos deve passar os 400% sobre o PIB este ano, enquanto que em termos globais deve-se abeirar da vizinhança dos 350% do PIB, tendo em conta que no 1º trimestre estávamos em 331% (Fonte: IIF), registando uma subida de 11 pontos face a dezembro, numa altura em que a procissão ainda estava a sair do adro da igreja...

O crescimento da dívida e dos défices acelerou o fim da independência dos Bancos Centrais, que se tornaram completamente reféns dos Estados. Nesse sentido, o tradicional ciclo monetário vai ser uma relíquia porque o crescimento da dívida obriga a uma política de taxas de juro baixas, sem fim à vista. A partir de agora tudo se vai resumir ao uso eficaz de um nova política de fusão, fiscal + monetária, pelas medidas de inclusão e pela redução das desigualdades.

Muitos têm dúvidas legítimas sobre durante quanto tempo este cheque em branco tem provisão? Provavelmente até se entrar oficialmente num processo de monetização da dívida a nível global. A pandemia é um determinante catalisador para a procura de novas soluções, na medida em que, a velha teoria do Helicopter Money ganhou novas asas com a Teoria Monetária Moderna (MMT), enquanto a introdução inevitável das criptomoedas com o intuito de aproximar a economia real à economia financeira, seguramente vai redimensionar o papel dos Bancos Centrais e do sistema financeiro global. A questão de fundo é que nós já entrámos em modo helicóptero a nível global e que provavelmente vai durar uns anos. Por outro lado, a era da digitalização precipitou-se e é uma questão de tempo até que sejam introduzidas as criptomoedas públicas. Neste capítulo a China está bem à frente e no final é provável que venhamos ter três moedas digitais públicas de referência; uma americana, uma europeia e uma asiática. Mas se o objetivo primordial delas é aproximar a economia real à financeira é intuitivo entender o porquê de termos chegado ao fim do padrão dólar e retirar as devidas ilações disso mesmo...

Mas tudo a seu tempo, agora é preciso entender o quanto pode vir a ser impactante esta nova política de fusão, na medida em que, uma mais rápida recuperação económica implica menores danos colaterais da pandemia. E à luz deste cheque em branco, o melhor é deixar de olhar para os mercados financeiros  apenas em contraluz.

A linha do tempo da pandemia está-se a encurtar e os estímulos económicos vão ficar por aqui durante muito mais tempo do que aquele que inicialmente se supunha. Esta realidade vai seguramente ter importantes alterações sobre o valor implícito subjacente às diferentes classes de ativos, sobretudo nos ativos reais, designadamente no real estate e nos mercados acionistas globais. 

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