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Eleições italianas: resultados, possíveis cenários, riscos inerentes e como podem afetar o mercado


O consenso de mercado esperava um resultado eleitoral fragmentado e com margem para surpresas nas eleições gerais italianas e a verdade é que a expectativa se cumpriu: o Movimento Cinco Estrelas (MSS) foi a força mais votada ao obter 32% dos votos, face aos 28% calculados pelas últimas duas sondagens; a Liga Norte (LN) obteve o melhor resultado da sua história, com 18% dos votos, enquanto o Partido Democrático (PD) apenas captou 19% dos votos e a Força Itália (FI), a formação de Silvio Berlusconi, conseguiu apenas 13,88%. A última reviravolta nesta trama política aconteceu com a renúncia de Matteo Renzi e o anúncio de que o PD irá engrossar as filas da oposição. Em resumo, os mercados acertaram ao esperar um cenário de coligação… mas equivocaram-se ao calcular o peso das forças que podem vir a intervir por ela.

Segundo Claudio Ferrarese, gestor da Fidelity, os pequenos partidos tradicionais estão em posição de debilidade e deverão alcançar um acordo com o M5S ou a Liga Norte”. Afirma que, ainda que ambas as forças antissistema tenham mais voz na agenda política, “os postulados mais extremos de cada partido provavelmente serão pouco incisivos quando chegarem ao poder”. O gestor recorda que, de facto, a retórica antieuropeísta de ambas as formações acalmou-se nos últimos meses, ainda que vaticine que “darão mais importância às políticas expansivas e deverão ter uma atitude mais beligerante em relação aos seus parceiros europeus”.

O prognóstico do gestor é de que “a reação correta do mercado dependa do quão diluído está o M5S na dita coligação: quanto mais suavizem as suas posturas à medida que negoceiam com outros partidos, melhor será para as obrigações, pelo menos inicialmente”.

Philippe Waechter, economista-chefe da NAM (Natixis IM), prevê um cenário adicional, no qual se forma “um governo tecnocrata com uma agenda para reformar a lei eleitoral e alcançar estabilidade política”. Com esta solução, o especialista acredita que “a chegada de um governo populista poderá manter-se, quanto muito, entre seis e 12 meses”.

Com independência do formato da coligação resultante, Vincent Reinhart, economista-chefe da Standish (BNY Mellon), assinala entre as obrigações futuras “moldar as expectativas dos cidadãos no que diz respeito às diminuições fiscais e ao aumento das subvenções, uma vez que o cumprimento de exageradas promessas realizadas pelos grandes partidos políticos durante a campanha eleitoral iria comprometer ainda mais a difícil posição fiscal do país”. Para além disso, o novo executivo deverá “reiterar perante as autoridades europeias o seu compromisso com a reforma do setor bancários”.

Riscos

Azad Zangana, economista-sénior da Europa da Schroders, declara que o resultado eleitoral “é muito importante para os investidores internacionais, em particular devido à envergadura da economia italiana”. Dito isto, esclarece que, apesar do auge dos partidos eurocéticos, “o risco de que se produza a saída do euro e da EU é reduzido”, porque a constituição italiana não permite uma votação deste tipo e para a reformar seria necessário o apoio de dois terços da câmara, “uma maioria com a qual os eurocéticos não contam”.

Assim, para Zangana, o maior risco levantado por este cenário reside no possível desvio dos orçamentos, ou até a revisão das reformas empreendidas nos últimos dois anos. “Esta situação levará a Itália a um choque com a UE e pode até provocar vendas massivas das obrigações”. Zangana alerta que o governo liderado por partidos extremistas “poderá levar os investidores internacionais a livrarem-se das obrigações do governo italiano, o que causará um drástico aumento das yields da enorme dívida pública, com um valor de 2,2 biliões de euros, o que equivale a 133% do PIB em 2017”. 

A partir da Amundi, o economista-sénior Andrea Brasili mostra a sua preocupação em relação ao rumo do projeto europeu com forças eurocéticas no governo italiano, assim como pelas políticas futuras em torno de um tema extremamente delicado para o país, as políticas de imigração. Paralelamente, Brasili destaca que esta segunda-feira a Alemanha anunciou a formação da Grande Coligação entre a UCD e o SPD, depois de seis meses de negociações: “Isto dará ímpeto às ações para realizar e reforçar a integração europeia nas linhas traçadas pelo presidente Macron”. Por esta razão, descarta “um incremento material do risco político na Europa, mas Itália terá que redefinir o seu papel dentro da arquitetura europeia”.

Reação dos mercados

O FTSE Mib italiano reagiu na abertura da sessão de segunda-feira com uma queda de 2%, que se moderou até os -0,42% no fecho. Entretanto, a dívida soberana italiana mostrou uma reação moderada, ao subir apenas 4 pontos as obrigações a dez anos, até roçar nos 2%. Segundos os especialistas da Goldman Sachs AM, isto poderá explicar-se em parte porque os mercados já tinham colocado grande parte da incerteza no preço. No entanto, alertam que, se a coligação resultante colocar dúvidas à viabilidade do projeto europeu, “poderá levar a um comportamento das obrigações soberanas italianas inferior ao mercado e a uma debilidade geral dos ativos de risco europeu”.

Segundo Adrian Hilton, diretor de carteiras de obrigações da Columbia Threadneedle, o cenário mais provável para os mercados nos próximos meses estará marcado “pela negociação e incerteza, enquanto se resolve a situação do parlamento”. Partindo do seu ponto de vista, “no pior dos casos, Itália convocará eleições outra vez dentro de alguns meses”. Tendo em conta o bom momento económico na Zona Euro, o especialista sentenceia que “os spreads da dívida soberana periférica possam continuam a convergir até níveis da dívida core”.

Os especialistas da Amundi calculam um alargamento dos spreads da dívida italiana entre 170 e 190 pontos base no curto prazo, ao colocar os mercados em jogo num cenário mais benigno. Para a bolsa, calculam “um aumento da volatilidade, o que afetará não apenas o setor financeiro mas também o índice FTSE Mib em geral, que tem estado a bater o EuroStoxx 600 em quase 6%”. Finalmente, observam um debilitamento temporal do euro face ao dólar.

Neil Dwane, estratega global da Allianz Global Investors, comenta que, ainda que seja provável esperar um aumento da volatilidade no curto prazo – os mercados equacionaram uma grande coligação entre o PD e o FI – no médio prazo, “a atenção do mercado passará da política para voltar novamente para os fundamentais”. Dwane recorda que a Itália cresceu 1,5% em 2017, enquanto o défice caiu até 1,9%. Para além disso, afirma que “parece que o setor bancários deixou as suas tristezas para trás e os bancos estão a começar outra vez a emprestar”.

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