Tags: Negócio |

Economia comportamental pode dar empurrãozinho às poupanças


Planos de pensões, doação de órgãos, vendas de produtos alimentares e limpeza de espaços públicos. Em primeira instância, estes temas carecem de qualquer relação. Porém, quando vistos sob a lente da economia comportamental, consegue-se encontrar um ponto comum: de forma mais ou menos intensa, todas estas áreas foram alvos da aplicação de nudges.

Conforme descrito por Richard Thaler, Prémio Nobel da Economia em 2017 pelo seu trabalho no ramo da economia comportamental, e Cass Sunstein no livro basilar “Nudge” (2008), “um nudge é qualquer aspeto da arquitetura da tomada de decisão que altera o comportamento das pessoas de forma previsível, sem proibir quaisquer opções e sem modificar significativamente incentivos económicos”.

As várias aplicações e benefícios associados desta “ferramenta comportamental” foram objeto de análise na edição de 2020 do evento Economia Viva, promovido pelo Nova Economics Club (Nova SBE) e pela Nova Students Union. Com o tema “Nudging: How Behavioural Economics can Shape Public Policy”, o painel juntou Alexander Coutts, co-diretor do Nova SBE Behavioral Lab, Bibi Groot, diretora e head of Educational Policy no CLOO Behavioral Insights Unit, Diogo Gonçalves, fundador da Nudge Portugal, e Sandra Maximiano, professora de economia no ISEG, numa mesa redondamoderada por Miguel Rêgo, CFA, da Funds People.

economia_viva_nudging_3Uma teoria posta em prática

Ao contrário de outras matérias económicas, cujo discurso teórico e aplicações estão distantes do cidadão comum, no caso concreto dos nudges a situação é completamente  oposta. Podemos encontrar casos de sucesso da aplicação desta ferramenta com relativa facilidade, ainda que, pela sua natureza, nos passem despercebidos. É o caso do processo de doação de órgãos em Portugal: a legislação nacional assenta no conceito de doação presumida, em que qualquer pessoa, a partir do momento em que nasce, adquire o estatuto de dador. Caso não pretenda ser abrangido, o cidadão tem de se registar como não dador. 

Este tipo de estratégia denomina-se por sistema opt-out - de exclusão - e tem como principal objetivo direcionar o cidadão para um comportamento positivo, mas conferindo-lhe sempre a opção de não o fazer. Os resultados deste nudge são evidentes: Portugal encontra-se entre os países com mais doação de órgãos, à semelhança de outras nações que adotaram medidas idênticas.

Outro exemplo de um sistema opt-out está a ser estudado no Reino Unido, desta vez aplicado a fundos de pensões e poupança para a reforma. Neste caso, a estratégia passou por inscrever automaticamente os colaboradores de empresas nos planos de pensões das entidades patronais, com as contribuições para o mesmo a serem descontadas diretamente do seu ordenado, mas sempre com a opção de retirada disponível. Segundo Sandra Maximiano, “já sabemos, através de outros estudos, que este tipo de medidas tem um impacto positivo”, porém, “ainda existe muita resistência na sua implementação, mas a discussão está a acontecer”.

Sugestões, não imposiçõeseconomia_viva_nudging_2

A discussão em torno das aplicações e vantagens da economia comportamental tem dominado os círculos económicos nos últimos anos, fruto das soluções alternativas que este ramo tem apresentado para problemas clássicos. Diogo Gonçalves explica que “na teoria económica clássica existem duas dimensões pelas quais se podem modificar comportamentos: pode ser acrescentada e fornecida mais informação (regulação), ou podem ser alterados incentivos (tributação)”. Porém, com a inclusão da economia comportamental vemos emergir uma terceira opção, especialmente sob a forma de nudges, para abordar questões da ordem social e económica.

A diferença fundamental entre estas ferramentas resume-se à sua obrigatoriedade. Ao contrário de qualquer lei, regulamento ou imposto, que são compulsivos e inevitáveis, um nudge não é mandatório. Como esclarece Bibi Groot, com a aplicação de um nudge “não estamos a proibir ninguém de escolher a opção ou comportamento que estamos a tentar que seja evitado”, mas sim a influenciar uma sugestão recorrendo a vieses humanos identificados. “Os indivíduos mantêm a sua autonomia para dizer ‘não’ e isso é muito importante”, conclui.

As grandes vantagens de aplicações de nudges resumem-se às reduzidas barreiras de implementação, com menos burocracia, mais agilidade e custos reduzidos, e à possibilidade de capitalizar sobre comportamentos padrão, assumindo um papel mais subtil. Porém, Alexander Coutts alerta para a importância da experimentação e para o facto de não haver uma substituição direta de ferramentas: “em certos casos faz mais sentido introduzir uma proibição do que um nudge”, explica. “Não queremos tornar todas as regulações em sugestões”, sentencia.
 

Profissionais

Notícias relacionadas

O Mais Lido