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E se a Alemanha saísse do euro? Sonhar é fácil e ainda não paga impostos!


Quem me conhece bem sabe que sempre fui céptico na adesão de Portugal ao euro. Em 1995, quando foram definidos os critérios para a moeda única sempre disse, nomeadamente nas minhas aulas de finanças, que Portugal mesmo que os cumprisse até 1998 como aconteceu, teria muitas dificuldades em os manter por um período longo de tempo. É como um aluno que teve 18 a 20 valores num teste cuja matéria gostou bastante; o problema é manter a mesma performance no futuro.

A fobia dos políticos europeus em terem muitos países unidos, achando que tal aumenta a coesão e minimiza o aparecimento de uma nova guerra, faz com que a União Europeia (UE) seja hoje uma manta de retalhos e ainda por cima curta, com o norte a puxar mais e o sul a ficar destapado. É ver Draghi a querer impulsionar a economia europeia com uma expansão já tardia do balanço do BCE, à semelhança do que fizeram o FED, o BOE e o BoJ, mas a Alemanha sempre a colocar entraves.

Muitos economistas têm referido que Portugal deveria sair do euro. Apesar de achar que Portugal errou ao ter entrado tão cedo na moeda única, considero que a penúria actual e a grande alavancagem do país (Estado, empresas e famílias) não aconselham a saída do euro agora. Os inconvenientes seriam muito superiores às vantagens.

Se a dívida pública não estivesse nos 131% do PIB, se o consumo não tivesse o peso que tem na formação do PIB (acima dos 60%), se as exportações já representassem 50% ou mais do PIB, se o peso dos bens transacionáveis fosse mais decisivo para a criação de riqueza, se o défice público fosse 1% a 2% do PIB, se o Estado tivesse sido reformado como deve ser, se as famílias e as empresas não estivessem tão endividadas…, apoiaria a saída do euro, até porque o modelo económico português continua a revelar os mesmos problemas estruturais que em 1995. Vejam os dados do PIB do 3º trimestre cujo crescimento de 1% em termos homólogos e 0,2% face ao 2º trimestre foi devido muito à custa do consumo privado, com as importações a crescerem novamente mais que as exportações e o défice comercial a aumentar (5º maior na UE).

A zona euro tem uma inflação de 0,4% e o PIB tem sido revisto em baixa. Nas reuniões do G20, a Europa e a Alemanha têm sido apontadas como os principais responsáveis do menor crescimento económico mundial.

Voltando ao título do artigo, a solução para a resolução dos problemas da Zona Euro seria a saída da Alemanha. Mas é claro que a Alemanha não sai! Onde é que a Alemanha teria uma moeda tão fraca como o euro? Onde é que a Alemanha com um marco bastante mais forte que o euro contra o dólar, seria tão competitiva? Continuaria a exportar em grande quantidade as suas marcas de automóveis para os países do sul, que tanto ela critica pelo despesismo, embora aqui até tenha razão?

O que aconteceria ao euro se a Alemanha saísse? É fácil estimar um €/USD abaixo de 1. Ou seja, a inflação subiria afastando de vez o fenómeno da deflação. A Alemanha que tem muito medo da inflação, com a valorização da sua moeda também já não teria esse problema; ganharia outro bem pior, a deflação. Mas aí seria problema dela! Teria que investir e consumir mais, como muitos lhe recomendam fazer e não faz.

Com a descida do euro, os países da região ganhariam mais competitividade, ou seja, finalmente o crescimento anual do PIB poderia rivalizar com os EUA e com outros países economicamente dinâmicos. O crescimento económico ajudaria a endireitar mais depressa as finanças públicas.
Eu sei que isto só pode acontecer em sonhos! Mas, por enquanto, os sonhos ainda não pagam impostos (vamos lá ver por quanto tempo!...).

Desejo a todos um Feliz e Santo Natal e um 2015 com saúde e sucesso.

Carlos Bastardo

 

(foto: whitecat sg, Flickr, Creative Commons)