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“DRACARYS…”


Parece que anda por aí de novo um dragãozinho fumegante a varrer a planície com “fogo e fúria”… ainda se sente o ardor no ar e o cheiro intenso a terra queimada! Talvez seja por isso, que o dragāozinho fumegante nem se apercebe da existência do aquecimento global, uma vez que está convencido que a potência do seu DRACARYS, por si só explica as alterações climáticas.

Este dragãozinho tem o dom de colocar tudo em sobressalto, sempre que se escuta lá do alto o ruído do bracejar das suas longas asas, é sinal que a qualquer momento vêm aí mais um DRACARYS… a incerteza propaga-se, inflamam-se os mercados financeiros, as cotações derretem-se e os media encarregam-se de espalhar o pânico na aldeia global.

Existiu uma fase onde se subestimou o alcance e os efeitos da estratégia política e económica de Donald Trump, mas claramente chegámos a um ponto onde estamos constantemente a sobrevalorizar algo que já nem sequer se pode chamar de estratégia. O uso de táticas repetidas, desconexas e aleatórias, que se prolongam no tempo, acabaram por esvaziar qualquer conceito de estratégia, tornando-se num conto surreal que mais faz lembrar esta história do solitário dragāozinho fumegante. Ninguém está a querer dizer que o protecionismo é inócuo, ou que a guerra comercial não seja para levar a sério, mas a realidade é que esta é apenas preconizada por um único país, onde no final é este quem tem mais a perder, na medida em que são as suas empresas as que mais operam globalmente. O estranho é que nem os próprios tradicionais aliados dos EUA, que entendem como genuínas as reivindicações contra algumas más práticas comerciais da China e que facilmente emprestavam o seu suporte, são poupados a estas humilhações e ameaças constantes...

Tudo parece tão inconsequente, na medida em que, torna-se cada vez mais evidente que o sagrado dragão chinês está a criar um mercado de bilhões de consumidores, com o projeto One Belt One Road. Isto sim é uma estratégia consolidada, que ganha aderência e que inconcebivelmente conta com a ajuda dos soluços do dragāozinho fumegante. Pode ser apenas uma questão de tempo até serem introduzidos novos standards que podem facilmente afastar muitas empresas americanas desse mercado, num abrir e fechar de olhos…

Nesse sentido, é importante reter que estes são tempos para se ter especial cuidado com o manusear do fogo, porque as temperaturas estão altas e o aquecimento global também fez com que os riscos geopolíticos tornassem os riscos financeiros ainda mais assimétricos. No entanto, cabe aos investidores não perderem de vista aquilo que é fundamentalmente relevante. É importante saber distinguir as diferentes ameaças e as distintas oportunidades, identificando corretamente aquilo que pode interromper ou prolongar a durabilidade do atual ciclo económico global. A razão é simples, há dragões e dragões, uns são mais versáteis e detêm um DRACARYS muito mais potente que outros.

Quem no ano passado se enganou na medicação e sem querer fez um DRACARYS, foi o dragão Fed. Felizmente, o dragão Fed acertou a medicação e apressou-se a fechar a culatra, pedindo as mais variadas desculpas esfarrapadas pelo sucedido...

De facto, o mais importante é perceber que em 2019 nos confrontamos com uma realidade completamente distinta da que enfrentámos em 2018. Temos um dragão Fed preocupado com a desaceleração da inflação. No primeiro trimestre, o deflator core do consumo privado correu a uma taxa anualizada de 1,3%, numa economia em que o próprio consumo está a desacelerar. Este último apenas cresceu 1,2% no primeiro trimestre e não deu grandes sinais de vitalidade em abril com as vendas a retalho a caírem 0,2%. Acresce o facto, que a estes níveis de taxas de juro as famílias continuam num processo de desalavancagem, estando o rácio do stock da dívida das famílias sobre o PIB em 74,9% no final do ano passado, ou seja, ao nível mais baixo desde de 2001. Não é pois muito difícil antecipar, que independentemente do livro de histórias que o dragãozinho fumegante queira escrever, o próximo movimento do dragão FED é de descida de taxas de juro, com vista a assegurar a durabilidade do ciclo económico global.

Nestas condições, a moral da história é relativamente simples de se entender:

- Não confundir, nem a intensidade, nem o alcance e muito menos a versatilidade do DRACARYS de cada um dos dragões, não esquecendo que o dragãozinho fumegante sabe disso melhor do que ninguém, quando “súplica” ajuda ao dragão FED para apagar as suas queimadas…

Mas quando voltarem a ouvir falar de Dracarys não se esqueçam, que o presidente americano é só um homem, a FED uma instituição e os dragões não existem!

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