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Dolat Capital: “Mesmo com uma vitória de Marine Le Pen na 2ª volta, o cenário de ‘Frexit’ não é adquirido”


Claramente rico em eventos, o primeiro trimestre do ano constituiu um desafio para as entidades financeiras. Da Dolat Capital - consultora que chegou ao mercado português no ano passado - Carim Habib, managing partner, é pragmático ao identificar três eventos que marcaram os primeiros três meses do ano.

  1. Início do mandato de um novo presidente nos EUA – evento “relevante” e que “desperta elevada expetativa”

Sobre este evento, Carim Habib realça que em 2017 “tomou posse um presidente com uma agenda disruptiva, mas sobretudo com um estilo de governação inédito, volátil, e eventualmente caótico ao nível da coordenação política convencional”. Um reflexo visível da nova era, diz o profissional, “é o comportamento da UST 10Y Yield que tem sido incapaz de se fixar acima dos 2,60%”. Explica que este comportamento da UST 10Y Yield, resulta, sobretudo, “das expectativas futuras dos investidores relativamente ao crescimento económico e inflação”, e não tanto da influência da FED, pois a Reserva Federal acaba por ter mais efeito no “segmento mais curto da curva de rendimentos”. “Existe nesta fase, uma elevada correlação entre expetativas futuras de inflação e crescimento, com a capacidade do presidente americano ser capaz de implementar o seu programa expansionista”, comenta Carim Habib. Do lado dos investidores, a grande expetativa prende-se com o que será feito ao nível da reforma fiscal, pois “terá impacto material e quase imediato nos resultados das empresas americanas”. “Segundo um estudo publicado pela Goldman Sachs, uma descida da taxa marginal das empresas do S&P500 para 25% permitiria um melhoria de 8% (a nível agregado) nos resultados por ação (EPS)”, remata.

  1. Início de subida das taxas pela Fed

Depois de em março a Reserva Federal norte-americana ter comunicado uma subida da taxas de juro em 25 bps, é necessário estar atento ao caminho traçado pela Fed. “A relevância desta medida é crucial pois sinaliza, em nosso entender, o fim definitivo da política dovish iniciada há sensivelmente uma década”, refere o managing partner, antecipando “mais dois, ou mesmo três, incrementos da Fed Funds Rate, até ao final do ano”. Da entidade esperam ainda que se inicie “no final do ano a política de normalização (redução) do balanço. 

  1. Escalada improvável de Emmanuel Macron

No que toca à Europa, da Dolat destacam o “bom comportamento do até recentemente improvável Emmanuel Macron”, no que toca às eleições francesas. Recorda que “a sua subida inesperada nas sondagens, especialmente a partir do final de fevereiro,posicionou-o como sério candidato a disputar a segunda volta com a favorita Marine Le Pen”. Aos investidores agrada, claro, “uma eventual vitória de um candidato com uma plataforma centrista e pró-europa”. Consequentemente, “o risco de crédito (e político) de França baixou significativamente”, e o “CDS apertou 15 bps em poucos dias”; “o spread face ao Bund diminuiu 20 bps no mesmo período”, e o “mercado de ações europeu foi consequente e subiu 5% no primeiro trimestre”.

Eleições francesas - riscos vs oportunidades

As eleições Francesas são para a consultora um dos eventos a monitorizar de perto nos próximos tempos. Na opinião da Dolat, “o pior cenário descontado pelo mercado (“tail-risk”) é uma 2ª volta das presidenciais disputada entre os extremistas Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon”. Mais vulneráveis ficariam, segundo a entidade, os ativos franceses - dívida pública, HY e mercado acionista, especialmente financeiras, esperando-se, posteriormente, “o contágio aos países da periferia (sobretudo Itália, Espanha e Portugal) onde o risco de crédito é maior e os mercados acionistas são estruturalmente mais frágeis”. De forma a mitigarem o tail-risk (sem utilização de derivados), Carim Habib recorda que os investidores “podem comprar proteção, ficando longos nos UST10Y, Ouro, JPY e GBP  (vs. EUR)”.

O profissional acredita, no entanto, que mesmo com uma vitória de Marine Le Pen na 2ª volta (Mélenchon não apresentou uma plataforma anti-europa), o cenário de Frexit não é adquirido. “O sistema político francês é caraterizado por complexidades e nuances (senão não seria verdadeiramente francês) obrigando a um exercício de poder através de negociação e consensos, não por rupturas. Nesta eventualidade, o mercado poderá oferecer-nos boas oportunidades, especialmente para investidores que baseiam a sua análise em fundamentais e têm uma visão mais estratégica”, remata.

Principais apostas

Da consultora assumem-se com uma disciplina de investimento que se baseia na “avaliação fundamental de oportunidades específicas (bottom up)”. Assim, entendem que “há pouco valor no mercado de obrigações soberanas de países desenvolvidos”. No seio das obrigações preferem as emergentes (em moeda forte), o high yield global (taxa variável e durações mais curtas) e também as convertíveis. No âmbito das ações, acreditam “que há valor nos EUA (cíclicas, health-care e small caps) e Reino Unido”. Por fim, e fazendo referência às moedas, indica que “há valor no GBP, especialmente face ao EUR e USD”.

(Carim Habib publicará trimestralmente na Funds People uma análise de Mercado)
 
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