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Diagnóstico: o que explica a compressão de margens no negócio de banca privada


A banca privada foi durante anos o setor mais rentável na indústria financeira a nível global. Até 2017, o negócio na Europa cresceu a um ritmo médio anual de 6% nos últimos cinco anos. Mas os anos de bonança foram travados em 2018: as margens caíram 22 pontos base e os lucros diminuíram para os 13 500 milhões de euros face aos 14 700 milhões do ano anterior. O que explica esta mudança de tendência? E é estrutural? O problema é que um ano mau nos mercados não fez mais que revelar os males do setor. Dois terços dos players na banca privada não melhoraram a rentabilidade do se negócio nos últimos cinco anos. Um recente estudo da consultora McKinsey realiza um diagnóstico.

No ano passado o setor teve de enfrentar um duplo golpe: a forte correção dos mercados e uma erosão prolongada do seu negócio. Porque uma das grandes diferenças face aos anos anteriores é que, como se pode ver no gráfico em seguida, em 2018, o universo de lucros diminuiu 8% face aos quatro anos de crescimento anual de 5%.

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Para ter uma ideia da mudança na maré: nos exercícios 2014-2017, o crescimento de lucros foi sustentado graças a fluxos positivos de 2,8%, uma subida de mercado de 3,3% e margens estáveis de 25 pontos base. Em 2018, pelo contrário, viveu-se uma queda de 4% em ativos sob gestão, um impacto negativo do mercado de 6,3% e as margens comprimiram-se em três pontos base.

Como apresenta o estudo, o fluxo de capital positivo está a tornar-se raro. Em 2018 uma em cada três bancas privadas teve fluxos negativos. Para a maioria foi o segundo ano consecutivo de saídas. Por isso não se pode atribuir o problema todo a um ano mau nos mercados.

Se não é só o mercado, o que mais explica a compressão de margens? A McKinsey identifica várias frentes:

1. A contração na margem dos depósitos. Os ativos em depósitos mantiveram-se relativamente estáveis nos últimos cinco anos, mas o contexto de taxas baixas fez com que o prémio nesta classe de ativos tivesse caído dos 42 pontos base em 2014 para os 26 de 2018. Isto representa um impacto direto de 4 pontos base na margem global.

2. A pressão também se nota nos mandatos. Nem sequer os mandatos, um nicho tradicionalmente rentável, estão isentos de uma descida na sua rentabilidade. Dos 97 pontos base que geravam em 2014, baixaram 6 pontos base em 2018. Isto é explicado por um aumento nas barreiras de entrada nos mandatos de assessoria baseado em comissões, uma maior transparência nas comissões que a regulação exige, a introdução de novos esquemas de preços (os all-in ou semi all-in) e uma mudança para uma clientela de maior património.

3. O crescimento de clientes menos rentáveis. Curiosamente, as margens em clientes pequenos (com um património inferior aos 2,5 milhões de euros) cresceu 133 pontos em 2018. Mas também é um segmento que diminuiu quanto a ativos totais sob gestão. E isto foi acompanhado de uma importante descida de margens nos clientes de elevado património (UHNW): dos 36 em 2014 para os 31 pontos base em 2018. No fim é uma clientela com mais poder de negociação num contexto complexo. E este sim é um segmento que cresceu, até representar 30% dos ativos.

“A banca privada precisa de reconfigurar o seu modelo de negócio para operar num mercado com um crescimento quase plano dos ativos e margens cada vez mais pequenas”, conclui o estudo. A indústria começou a atuar e em sucessivos artigos trataremos algumas das medidas que implementaram as entidades, mas a realidade é que os custos da banca privada na Europa continuaram a escalar nos últimos anos.

Desde 2014, em termos absolutos, a base de custos na indústria cresceu a um ritmo de 2-3% anualizado. Para a McKinsey, é um reflexo da limitação na alavancagem operacional e na capacidade de fazer escala no modelo de negócio de banca privada apesar de um investimento maior em automatização, digitalização e tecnologia. A maior inflação nos custos deu-se no front office, incluindo vendas e marketing.

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