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Dez anos depois da crise: estas são as seis transformações que aconteceram na economia mundial


Este ano celebra-se uma terrível efeméride, a queda do Lehman Brothers. O aniversário coincide com a visão cada vez mais comum entre o consenso de mercado de que as principais economia do mundo estão a alcançar o final do ciclo, mas sem se observar os excessos típicos de outros finais de ciclo. Nestes dez anos produziram-se seis mudanças fundamentais no funcionamento da economia global que os investidores deverão ter com conta nas suas previsões. Philippe Waechter, economista chefe da Ostrum (Natixis IM), detalha essas mudanças.

1. O comércio mundial já não cresce ao mesmo ritmo

Waechter recorda que, antes de 2008, o comércio mundial costumava crescer a um ritmo de 6,8% ao ano, criando, portanto, “uma forte fonte de momentum para a economia e impulsionando o crescimento económico, com uma dinâmica virtuosa entre o comércio e a atividade económica”. No entanto, 2011 marcou um ponto de inflexão nesta tendência, caindo a taxa de crescimento para níveis de 2,3% como consequência, principalmente, da aplicação de medidas de austeridade na Europa.

O economista conclui que o comércio já não é uma fonte de momentum tão relevante, já que a mudança foi especialmente significativa na Europa; tradicionalmente o continente recuperou com um período de atraso relativamente ao resto do mundo, especialmente aos EUA.

A maior debilidade da tendência é, segundo o especialista, o ritmo de crescimento inferior ao passado. Além disso, transformaram-se as próprias dinâmicas internas do comércio mundial: “Os países desenvolvidos fazem uma contribuição menos significativa, porque mostram um momentum industrial mais débil e esta configuração significa que são necessárias novas fontes para desencadear uma renovação no momentum da atividade económica”.

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2. O equilíbrio mundial já não é o mesmo

No seguimento desta última observação, Waechter constata que a queda da contribuição dos países desenvolvidos para o crescimento mundial via atividade industrial tem sido compensada por um maior protagonismo da Ásia. Como se observa no gráfico abaixo, a produção mundial avançou 21% entre 2008 e finais de 2017, mas a alocação dos ganhos foi de 3% para os EUA e 93% para a Ásia ex-Japão.

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3. A produtividade abrandou

A recuperação económica não se produziu à custa de uma melhoria significativa da produtividade. Isto deve-se ao facto de “as economias ocidentais já não serem capazes de gerar um superavit requerido para sustentar despesas mais elevadas e financiar o sistema de segurança social”, afirma Waechter. Este acrescenta que, agora, “é muito difícil dar passos significativos em diante no progresso social”, e dá como exemplo o problema da sustentabilidade das pensões públicas.

Segundo o economista, há dois fatores por detrás da queda da produtividade: a crise financeira e o incremento da produtividade presenciado no final da década de 1990. “Estes fenómenos combinam-se também com a assinalável transformação que foi desencadeada pela digitalização da economia, que obriga a executar ajustes significativos”, acrescenta.

Waechter explica que o desafio agora é ser capaz de poder determinar como o impacto da inovação será capaz de contrabalançar a longo prazo os outros dois fatores, num contexto em que a digitalização contribuiu para gerar grandes diferenças entre países, sectores e empresas.

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4. Perdas na negociação salarial.

O economista constata que a capacidade de oferecer valor acrescentado passou de ser uma vantagem para o empregado, para uma vantagem do empregador. Isto explicaria a descida dos salários na maioria dos países desenvolvidos. “Também reflete e demonstra a menor capacidade de negociação salarial dos empregados, e explica em parte a falta de inflação salarial. Esta situação é amplificada pela menor participação dos sindicatos”, acrescenta.

Waechter dá como exemplo desta situação a evolução dos salários nos EUA, onde se observou o incremento de bónus em detrimento do crescimento salarial, como uma ferramenta para reduzir a base de custos empresarial. Nesta linha, afirma que “a incapacidade para impulsionar os salários quando o desemprego cai rapidamente, é um novo modelo de ajuste que não implica a implementação de restrições rápidas e fortes no ciclo para o regular e evitar desequilíbrios permanentes”. Esta observação leva Waechter a afirmar que “a política monetária pode também ser agora acomodatícia no longo prazo”.

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5. A dívida das famílias continua elevada

Cabe recordar que a crise financeira global foi uma crise de dívida transversal: endividamento das empresas e endividamento das famílias, especialmente através de créditos hipotecários. O economista afirma que este tipo de endividamento não se reduziu na Europa na última década. Dá como exemplo dados publicados pelo banco central Francês: se quando se criou a Zona Euro o rácio de endividamento das famílias era de 73%, em 2010 representava 97,8% e, no terceiro trimestre de 2017, o número tinha recuado apenas para 93%.

Waechter esclarece que seria difícil esperar uma alavancagem maior no futuro, como sucedeu durante a primeira parte da década de 2000: como a produtividade continua baixa, não se espera um incremento dos rendimentos disponíveis. “Esta tendência poderá levar a um cenário de estagflação secular”, afirma.

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6. O equilíbrio político mundial já não é cooperativo por natureza

neste ponto, o economista limita-se a comentar a mudança de forças provocada pela soma de tudo o que foi exposto anteriormente: “As pessoas com rendimentos menores em países desenvolvidos sentem-se como trabalhadores de países emergentes”. A queda da produtividade e do poder aquisitivo gerou um descontentamento da população que, nas urnas, traduziu-se me eventos como o Brexit ou a chegada de Donald Trump à casa branca.

“Os EUA estão-se a separar gradualmente da Europa, enquanto o Reino Unido vai atrás de um sonho”, aforma Waechter. Este acrescenta que, paralelamente, a China embarcou no seu próprio projecto “One Belt, One Road” para “criar um marco comercial e de redes para servir os seus próprios interesses”. Neste contexto, o economista sentencia que “é vital que a situação gere um cenário em que a Zona Euro e a Europa recuperem mais influência na nova ordem política”.

 

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