Desinvestimento ou ativismo corporativo?


Cada vez são mais as gestoras que estão a anunciar planos para desinvestir de empresas que não cumprem critérios de sustentabilidade. As empresas que cimentam o seu negócio nas energias fósseis são as grandes lesadas pela transição da indústria para um modelo de investimento cada vez mais baseado nos princípios ESG. A pressão do ativismo para que as entidades se desfaçam das suas posições deste tipo de empresas é cada vez maior. Neste sentido, o anúncio de que a ExxonMobil será substituída pela Salesforce (uma empresa de software), após ter sido membro do Dow Jones durante 92 anos, é considerado por muitos como um momento histórico, que mostra uma paisagem em mudança para a economia.

Uma das questões que se coloca é se o facto de as gestoras começarem a tirar empresas de petróleo, gás e carvão das suas carteiras, ajudará a impulsionar a transformação do setor energético em direção a um futuro mais limpo. “À primeira vista, poderá estar claro que se os gestores se desassociarem de uma empresa, isso deverá dar lugar a uma queda dos preços das suas ações e, portanto, a uma diminuição da sua valorização em bolsa. Em geral, esta suposição está certa, mas é preciso ter em conta que há um comprador para cada ação que se vende. As ações não desaparecem, só porque alguém as está a vender”, assinala Detlef Glow, diretor de Análise de Refinitiv para EMEA.

Segundo explica, isto simplesmente significa que as ações estarão nas mãos de outra pessoa ou instituição que, em termos gerais, se sente confortável com o modelo de negócio deste tipo de empresas, contribuindo para manter os seus projetos de exploração, já que o mundo vai depender durante muito tempo das energias fósseis e do petróleo como matéria-prima básica. Para o especialista, isto conduz a uma reflexão: que, talvez, melhor do que optar pelo desinvestimento, desfazendo diretamente qualquer tipo de posição nestas empresas, será adotar uma visão mais construtiva, orientada para se manter na sua estrutura acionista para tratar de mudar a partir de dentro a vida e o modelo de negócio da empresa.

Desinvestimento

“Do ponto de vista ambiental, poderá ser mais interessante se as gestoras se mantiverem investidas e pressionem a empresa para levar a cabo uma transformação para práticas mais sustentáveis. Isto significa que os gestores de fundos devem comprometer-se com os conselhos de administração das empresas para se reorganizem as suas estratégias. As empresas de energias fósseis podem transformar-se em empresas sustentáveis investindo na produção de energias alternativas. Também podem tornar-se líderes tecnológicos, já que o cashflow do negócio da energia fóssil poderá ser utilizado para impulsionar a investigação e o desenvolvimento de energias alternativas”, sublinha Glow.

“Isto significa que o conselho de administração vai necessitar do compromisso dos seus investidores, que normalmente se esforçam para obter rendimentos de capital e dividendos. Os gestores de ativos, por sua vez, terão de se comprometer com a sua estratégia ESG, já que vimos que quase todos os gestores de ativos falam de ESG, mas só alguns põem as suas palavras em ação. Além da falta de conhecimento sobre como implementar de forma efetiva uma estratégia ESG, uma das principais razões desta falta de compromisso são os custos, já que as gestoras de ativos vão precisar de pessoal adicional e outros recursos para executar uma estratégia de compromisso a longo prazo”.

Além disso, cabe recordar que a exigência dos reguladores sobre o plano de ação da UE para o financiamento do crescimento sustentável se centra nas mudanças climáticas como primeiro passo e não vai suportar os gestores de ativos que decidam adotar medidas para tornar mais sustentáveis os modelos de negócio das empresas. Assim, é possível que vejamos mais entidades a desassociarem-se das energias fósseis e outras empresas que possam não satisfazer as necessidades da taxonomia da UE, em vez de as manter para tentar transformá-las. Portanto, é questionável que vejamos um impulso para modelos de negócio mais sustentáveis dentro dos setores nos quais os gestores de ativos começam a desinvestir”.

Há várias formas de fazer com que uma empresa na qual investimos seja mais sustentável. Enquanto alguns gestores optam pelo desinvestimento, outros preferem exercer pressão via engagement. As gestoras terão de escolher em cada caso e de acordo com os seus critérios qual pode ser  a melhor forma de exercer pressão e gerar impacto.

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