Democratizar o ESG


Esbater a ideia de que a questão da sustentabilidade apenas tem força nos países nórdicos, e democratizar os produtos ESG entre a cadeia de clientes. Estes são dois objetivos que se pode dizer que estão no top of mind de Isabelle Millat, head of Sustainable Investment Solutions da Société Générale, que em visita a Lisboa falou com a Funds People sobre aquele que é um esforço transversal ao grupo do qual faz parte também a gestora Lyxor Asset Management.

Trata-se de um esforço do grupo no sentido de implementar processos de finanças sustentáveis, e que começa nas equipas financeiras, nos empréstimos às empresas, e que vai até à subsidiária Lyxor AM, desenhando soluções de investimento financeiras sustentáveis. Diria que a nossa função é desenhar soluções que transformem os princípios ESG em realidades lucrativas e investíveis para cada vez mais e mais investidores”, começou por referir a especialista.

O trabalho da profissional passa, portanto, por criar novas soluções para os investidores em contacto com as várias subsidiárias do grupo, mas o grande foco atual acaba por ser bem mais específico: expandir o mercado com o maior número de soluções customizadas, de forma a que o ESG chegue ao maior número de investidores. É nesse sentido que acabam por já ter uma ligação grande a bancos de retalho e private bankings, onde distribuem a sua oferta. “Trata-se de uma cadeia de valor alargada”, pontualizou.

Exemplo dessa oferta são as soluções para clientes de retalho que proporcionam proteção de capital no vencimento, com o plus da performance de uma estratégia com um filtro ESG. “Trata-se de um cabaz de empresas que são filtradas com base em critérios ESG, ao qual se agrega uma componente de fixed income de forma a criar proteção de capital. É um produto muito popular no retalho”, elucida a responsável, explicando que estas soluções são desenhadas um pouco “à vontade do freguês”. O cabaz pode ter uma componente de yield, por exemplo, ou outra caraterística pela qual sintam interesse da parte do cliente. “Nada mais é do que ter uma componente ESG combinada com uma caraterística financeira”, simplifica.

In house mas também fora 

A integração destas soluções chega à gestora do grupo, claro, e aqui o objetivo é a criação de fundos que façam o tracking de determinadas estratégias. “Na nossa equipa de índices há muito tempo que começaram a ser criados índices temáticos ESG, e nasceu por exemplo o índice da água, que resumidamente se trata de um cabaz de companhias que são ativas no tratamento das águas e com atividade em water utilities. Eles desenharam o índice, e a Lyxor construiu um ETF que teve por base esse índice”, recorda. Um serviço que não fica confinado às portas do grupo, e que se abre a outras marcas, como aconteceu com uma gestora de ativos francesa, lembra Isabelle Millat. “Desenhámos para essa entidade um cabaz de empresas de baixo carbono, que selecionava dentro do universo acionista francês, sector a sector, as companhias que emitiam menos CO2 comparativamente com os concorrentes, e também as que tinham sido capazes de reduzir as emissões de CO2. Não se trata apenas de olhar para um snapshot, mas sim acompanhar a tendência positiva de algo e embeber essa tendência na estratégia”, sentencia.

Igualmente, também o research feito in house é ferramenta de trabalho para as gestoras de ativos. “O nosso research é feito com live track record no website, não tem  por base projeções; podemos partilhar com as gestoras de ativos os nossos ratings ESG, cuja particularidade é serem conduzidos pela efetiva materialidade financeira”, conta. Olham para os factores ESG sector a sector que conduzem a performance de uma determinada ação, e publicam os ratings... Os números, mostra a especialista, são tentadores. “Se uma entidade tivesse selecionado o Top 10% das melhores opções dentro de um universo de ações europeias nos últimos sete anos, teria superado o benchmark em aproximadamente 29%. É possível portanto superar o mercado com produtos ESG, especialmente se existir um foco na materialidade financeira, que é aquilo que estamos a fazer”, especifica.

Demasiado foco no clima

Estando na presença de uma responsável de  investimento sustentável, inevitavelmente que o tema regulação é tocado. Isabelle Millat dá as boas-vindas à “standardização e transparência”, pois o “vocabulário comum” é necessário, mas vê algum viés da parte de quem regula. “A regulação atual, creio, está um pouco focada ainda na parte do clima, e a taxonomia é exemplo disso. Sinto que a regulação não cobre todas as necessidades dos meus clientes”, enfatiza, afirmando que a entidade acredita que todo o tópico do investimento sustentável tem de ser olhado de forma holística.

Em jeito de conclusão, a responsável quase que traça a união de três vértices de um triângulo, para que o tema da sustentabilidade seja bem aplicado: inovação, educação, e customização.

 

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