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De vendedor de fundos a gestor estrela


A história de como Andrea Delitala se transformou num dos gestores europeus mais populares é muito curiosa. Este profissional italiano começou a sua carreira em Londres como economista no Deutsche Bank. “Na altura perguntavam-me, a partir da mesa de negociação, a previsão do PIB para Itália e o que ia acontecer com a lira. Agora as dinâmicas dos mercados são parte do meu ADN profissional”. Depois de passar por empresas distintas, em 2007 aventurou-se pelo lado comercial da Pictet AM, que lhe encomendou a tarefa de distribuir os fundos da gestora em Itália. Entre as suas atividades estava a de proporcionar aos seus clientes institucionais um serviço de propostas de carteiras. “Isto deu-me um conhecimento claro do que os investidores precisam”.

Começou por fazer combinações dos fundos da gestora suíça. Tendo em conta o êxito, permitiram-lhe abrir o espectro a uma série de outras classes de ativos. As suas carteiras começaram a ficar cada vez mais parecidas com um fundo multiativo, por isso... porque não dar-lhe uma oportunidade como gestor? Excecionalmente, Delitala obteve uma autorização da Pictet AM para lançar um fundo multiativo flexível no qual pudesse implementar as suas ideias. Denominaram o fundo de Pictet Multi Asset Global Opportunities (MAGO). O seu início como gestor passou despercebido, com o interesse limitado quase em exclusivo aos investidores italianos. No entanto, Dalitala atravessou os Alpes para apresentar a sua estratégia ao resto da Europa, onde pouco a pouco os clientes institucionais se foram familiarizando com a estratégia.

O arranque definitivo deu-se há mais de dois anos, coincidindo com o terceiro aniversário do produto. Foi aí que os investidores começaram a sentir-se empolgados com o produto, o que disparou o seu património para mais de 4.000 milhões. Tem tudo: ativos, reconhecimento e uma filosofia bastante bem definida, à qual jurou lealdade absoluta.

O êxito do fundo deve-se ao facto de ter cumprido com o que prometeu: uma volatilidade anual de 5%. O compromisso de risco é inviolável. A minha obsessão é controlar a volatilidade e o drawdown para alcançar o objetivo com o qual o fundo foi concebido: ser uma alternativa ao perfil de rentabilidade/risco das obrigações. A nossa obsessão pelo controlo da volatilidade e do drawdown torna-nos na alternativa mais próxima ao elemento que se perdeu nas carteiras pelo seu risco elevado: as obrigações europeias. Representamos a terceira via. O nosso investidor sabe que não vai gerar grandes lucros, mas irá evitar grandes perdas. Mantemo-nos firmes à nossa proposta e os investidores sabem o que esperar do produto”.

O gestor gerou, desde o lançamento do fundo em agosto de 2013, uma rentabilidade anualizada de 4,29% (classe institucional em euros), se bem que reconheça que parte deste bom comportamento é da responsabilidade dos bancos centrais. “Olhando para os próximos três anos, prevejo que nos situemos entre os 2% e os 4%. De facto, as obrigações voltarão ao seu perfil habitual de rentabilidade/risco caso a normalização ocorra. O pior dos cenários é que continue este período de hipnose. Significa que não existe nada para comprar. Se o mercado continuar a subir podemos obter uma rentabilidade de 3% e se cair estamos mais protegidos que outros”.

Peculiaridades do fundo

O produto tem várias características que o tornam bastante diferente de um fundo multiativo tradicional. A primeira diz respeito à sua filosofia. “Não fazemos uma seleção de valores, mas sim um investimento top down. Selecionamos a classe de ativos e dizemos se um gestor é apropriado. Temos tendência para gerar grande parte do alfa via investimento temático. Não somos um fundo de fundos, uma vez que compramos diretamente, mas entregamos um mandato mediante subcontas aos nossos gestores para que giram uma parte de acordo com os seus respetivos investimentos temáticos. Em emergentes dispomos de um veículo de investimento passivo próprio para a parte estratégica. Se quisermos posições táticas podemos comprar o ETF”.

O elemento diferenciador do MAGO é que na equipa tratam de identificar e reagir rapidamente ao factor dominante em cada momento. “Medimos com a maior exatidão a posição do mercado, isto é, até que ponto está o cenário descontado. Isto é mais fácil de dizer do que fazer, mas ao utilizar este processo melhoramos a proteção e podemos aproveitar melhor as oportunidades, adaptando-nos às alterações do regime de correlações entre ativos, regiões e sectores. Construímos a carteira tentando diversificar o máximo possível tendo em conta de onde poderá vir o risco e protegendo-a dos choques de correlação. Essa é a razão pela qual existimos”, afirma.

Os derivados desempenham um papel decisivo nesse controlo de risco, aos quais o gestor recorre frequentemente. “Minimizamos o custo da proteção mediante estratégias mais sofisticadas, como a compra de uma call e vendendo uma call a um preço de exercício maior – call spread – e uma put. Utilizamos futuros e opções sobre o índice de ações como meio alternativo de exposição ao risco e podemos assumir posições em instrumentos mais sofisticados, incluindo futuros sobre o VIX e opções sobre futuros de volatilidade. No mercado de obrigações protegemo-nos através da cobertura da duration, assumindo posições curtas”.

O mercado irá quebrar

Para o gestor, a dinâmica na qual os mercados estão submersos não pode durar para sempre. “Estamos a sair de um longo período de repressão financeira, durante a qual os bancos centrais inundaram o mercado de dinheiro. Todas as classes de ativos foram favorecidas. Além disso, desde a eleição de Trump as ações subiram e mantiveram-se elevadas, apesar das dificuldades de implementar as suas medidas. O mercado está hipnotizado por dados macroeconómicos decentes, com valorizações bastante ajustadas em ações e obrigações, e um futuro que não garante que tal combinação seja sustentável. Por diferentes razões, as ações e as obrigações têm valorizações bastante altas. Espero sérias e importantes correções em, pelo menos, um dos dois ativos. A experiência indica que se o dano é originado por um erro de política monetária dos bancos centrais pode existir um choque de correlação”. É aí que – segundo Delitala – o investidor ficará feliz por deter o seu fundo em carteira.

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