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De screening a active ownership , passando pela integração ESG


É necessário sacrificar rentabilidade para assumir uma abordagem de investimento baseada em fatores ambientais, sociais e de governance (ESG)? É melhor integração ou engagement na abordagem às empresas? Qual o futuro do tema mais em voga nos últimos tempos na indústria de gestão de ativos?

Estas foram algumas das questões abordadas na mais recente BPI-Nova SBE Asset Management Conference, levada a cabo no novo Campus da Nova School of Business & Economics a 12 de outubro. Houve espaço de debate para abordar o tópico do investimento ESG em várias vertentes, numa mesa redonda moderada por Miguel Rêgo, CFA, onde estiveram presentes académicos, mas também profissionais da indústria financeira.

Com a máxima de que não se movem apenas pelo retorno, mas também pela gestão do risco, Paulo Freire de Oliveira, CEO da BPI Gestão de Activos, foi o primeiro a falar sobre a ideia de sacrificar – ou não - os retornos em detrimento da abordagem ESG. “O retorno é o resultado de um processo de investimento resultante de uma correta avaliação do risco e, mais importante, para mim, na forma como vejo a BPI GA, é o facto do ESG poder mitigar os tail risks a num nível individual. Provavelmente os tail events em determinados temas específicos serão menos frequentes quando aplicamos análises ESG, e isso irá melhorar o perfil de risco/retorno dos meus produtos”, iniciou.

Na opinião de Vikas Agarwal, da Georgia State University, o ESG está, de alguma forma, a amplificar o significado de algumas ideias instituídas. “O que o ESG está a fazer é alargar o conceito de não se considerar, na prática, os acionistas como os únicos stakeholders na empresa, fazendo pensar de forma mais ampla em todos os indivíduos e entidades que beneficiam com o sucesso de um determinado negócio. Acredito mesmo que esta é uma ideia que já está a ser refletida no valor dos ativos”, referiu.

De uma perspetiva conhecedora da implementação de processos ESG, tanto em produtos, como nas empresas, Rodrigo Tavares, do The Granito Group, mostrou à audiência, com recurso a dois exemplos, como é que as questões ESG já impactam de sobremaneira a vida das empresas que descurem estas questões. “Tenhamos em mente a empresa brasileira de mineração Vale e a empresa Sustainalytics que avalia a qualidade ESG dessa empresa em específico.  Da última vez que a Vale se viu envolvida num problema, com o escândalo de Brumadinho, o valor da empresa decresceu 28% em 24 horas, depois da companhia de ratings ter feito um downgrade na sua avaliação”, começou por referir. O segundo exemplo: “A maior empresa pública de utilities norte-americana, a Pacific Gas & Electric, entrou recentemente em falência porque negligenciaram a correlação entre as mudanças climáticas, os incêndios florestais e o seu negócio”, atestou.

O perigo de olhar só para o best in class

Foi com estes dois exemplos em cima da mesa que Rodrigo Tavares quis deixar um alerta sobre a forma como se está a olhar para o investimento sustentável: “Estamos todos demasiado entusiasmados em relação ao mundo ESG, que acabamos todos por alocar recursos a ativos onde os riscos e os retornos estão todos balanceados, ou seja, às empresas best in class. A partir do momento em que isso é feito, ou seja, em que se olha para os índices e se selecionam as melhores cinco empresas ESG no mundo, esperando-se que tenham um bom retorno durante os próximos cinco anos, começa-se a criar um efeito de bolha, com a valuation dessa empresa a desligar-se da realidade”, explicou. O importante, assinalou o especialista, é “integrar os dados ESG conjuntamente com a análise fundamental e ter em conta que o tópico quente nos próximos 12 meses será seguramente o active ownership”.

Olhando para esta questão pelo mesmo prisma, Vikas Agarwal concordou que o active ownership “é chave”, sendo o factor integração “o menos importante”, na sua opinião, quando se fala do investimento ESG. No mesmo sentido, Lu Zheng, da University of California –Irvine, acredita que “a gestão ativa hoje em dia envolve não só a seleção ativa dos títulos, mas também o envolvimento na gestão diária das empresas”.

Reticente em assumir uma posição tão marcada relativamente ao processo de integração esteve Paulo Freire de Oliveira. “Não sei se concordo que a integração é a parte menos importante. Diria que esse papel de menor relevância fica reservado para o screening, inferiu, explicando: “Fazer green washing com recurso a algumas listas que previnem o investimento em determinadas empresas ou que incentivam a investir em outras, penso que é algo ainda mais perigoso. De uma perspetiva financeira, temos de ser cuidadosos porque teremos portefólios com um enviesamento muito maior para factores de risco tradicionais. Sou muito céptico em relação aos screenings – positivos ou negativos – precisamente por causa desses bias que introduzem nos portefólios. Na integração isso não acontece.  No BPI, por exemplo, tentamos adaptar a integração a cada carteira”, concluiu.

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