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De onde poderá surgir a próxima crise?


A crise financeira de 2008 teve origem numa abundância de poupança que se acumulou à medida que os mercados emergentes, especialmente a China, acumularam excessos através do investimento. Grande parte terminou no sistema bancário dos mercados desenvolvidos, particularmente o Reino Unido e os Estados Unidos, onde fluiu para a economia através de uma explosão de empréstimos sub-prime.

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No entanto, o excedente nos emergentes desapareceu enquanto os desenvolvidos entraram em excedente. Dez anos depois, os desequilíbrios na economia global são consideravelmente menores, defende Keith Wade, economista-chefe da Schroders, mas destaca três zonas potenciais de futuro stress.

1- Os mercados emergentes são mais vulneráveis

O déficit nos mercados emergentes no seu conjunto está longe do nível no qual os desenvolvidos se moviam antes da crise, e até há países com excedente. Contudo, em comparação com o passado, a região é mais dependente do capital externo.

Impulsionados pela China, os mercados emergentes poderão entrar em déficit. A exigência dos Estados Unidos de reduzir em 200.000 milhões de dólares o seu déficit bilateral com a China poderá colocar sob pressão o excedente atual nos bens. E, por outro lado, o déficit invisível (nos serviços) poderá acentuar com o aumento das viagens de chineses para o estrangeiro.

2- O déficit da conta corrente dos EUA persiste

O déficit da conta corrente dos Estados Unidos reduziu significativamente na última década. “No entanto, a expansão da política fiscal sob Trump e o consequente aumento do déficit orçamental irá, provavelmente, aumentar ainda mais o déficit”, opina Wade.

Embora a economia americana seja robusta e as taxas de juro tenham estado a subir à frente do resto do mundo, houve poucos impedimentos para financiar este desequilíbrio, tal como se aprecia na robustez do dólar. “Contudo, à medida que a política monetária normaliza no resto das zonas, os ativos norte-americanos irão perder o interesse e o financiamento não será tão favorável”, defende o especialista. Isto poderá, em última instância, forçar uma redução da política fiscal e um período de crescimento mais frágil nos Estados Unidos.

3- A valorização inevitável do euro?

“O maior desequilíbrio, hoje em dia, está entre o euro e o resto do mundo”, afirma Wade. Um desequilíbrio sustentado pelas políticas extremamente permissivas do Banco Central Europeu, que está a forçar os investidores para fora do euro e para outras moedas à procura de rentabilidade.

Um euro frágil foi uma grande ferramenta para combater a inflação. No entanto, a pressão para a sua valorização esteve sempre aí, dado o grande excedente da região. Visto que o BCE teve sucesso a afastar um forte aumento, a divisa europeia, inevitavelmente, irá fortalecer. E isso implicará um grande desafio para a Zona Euro, onde ainda se luta por gerar uma inflação sustentável nos 2% e com dificuldades para crescer em certas partes da periferia.

A nível global, os desequilíbrios reduziram. O mais importante é o fim da dependência da economia mundial da reciclagem do excedente da China para os Estados Unidos.

O outro lado da moeda é que os mercados emergentes agora são mais vulneráveis a algumas condições de financiamento mais restritas. Além disso, a Zona Euro tem pela frente um grande desafio pelo facto de se ter tornado na “nova China” devido ao seu excedente da conta corrente.

Por isso, acerca da nova crise, Wade irá estar de olho na Europa, que combina atualmente um excedente com uma divisa frágil, através de uma política monetária acomodatícia. “Num mundo perfeito a recuperação da Zona Euro virá acompanhada de juros mais altos, mas na prática a dificuldade é maior, à medida que o BCE tenta desfazer as suas políticas sem uma valorização significativa do euro e o risco de desviar a atividade da região”.

É perigoso porque, tal como o Japão já experienciou, poderá perseguir a Europa durante um período indefinido de tempo.

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