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Dave Fishwick (M&G): “O S&P 500 não está caro, a sua valorização é neutra”


“Os mercados são incrivelmente surpreendentes. 2016 foi um exemplo fabuloso”, afirma Dave Fishwick, responsável da equipa de Multiativos da M&G Investments e gestor do M&G Episode Macro Fund. A equipa que lidera – a qual gere fundos como o M&G Dynamic Allocation, classificado como Blockbuster Funds People – trabalha há anos sob a tese de que “é muito difícil saber sistematicamente o que vai fazer o mercado no futuro”, recorda Fishwick. O seu trabalho consiste em analisar o comportamento emocional dos investidores para uma melhor compreensão das valorizações dos ativos.

“O ser humano está programado para pensar no risco em função da sua própria experiência. Por exemplo, pode-se pensar que investir em ações de bancos italianos é arriscado, mas não na dívida soberana porque tem sido um ativo gratificante durante muito tempo”, explica o responsável. A sua interpretação deste comportamento é a de que “as pessoas não costumam olhar para a mudança dos padrões de valorização”. Dá como exemplo a comparação dos retornos potenciais das obrigações soberanas face às ações de qualidade: “Falamos de um potencial de retornos de dois dígitos nas ações contra a possibilidade de retornos negativos na dívida soberana, quando ambos os ativos apresentam atualmente níveis semelhantes de volatilidade. É uma situação extrema”.

Fishwick expõe outro caso de mudança extrema: “Em 2001, os investidores escolheram investir em ações que ofereciam um potencial inferior ao da dívida soberana, isto é, que tinham um prémio de risco negativo. Em 2016, o prémio de risco das ações face à dívida soberana alcançou os 15%. Os títulos soberanos estavam a oferecer retornos semelhantes aos das ações, mas com uma volatilidade própria das obrigações. A introdução das taxas negativas alterou-os completamente, e agora os títulos soberanos são um ativo muito perigoso”.

O responsável explica que as suas afirmações não são absolutas: há partes da dívida soberana em que o investidor é recompensado por assumir o risco, mas encontram-se principalmente no mercado de dívida emergente. Fishwick vê, ainda assim, como atrativas algumas partes do mercado de crédito, como os títulos britânicos com rating BBB, enquanto insiste que as ações são o mercado que oferece agora uma melhor relação rentabilidade/risco. “O que se passa é que muitos gestores ativos tiveram más experiencias em ações nos últimos anos devido às correções e, por isso continua a ser um ativo no qual poucos querem entrar”, explica. A conclusão do responsável é arrasadora: “Os investidores continuam agarrados ao que acreditam como sendo verdade. Esqueceram-se do que costumavam acreditar”.

O que está caro e o que está barato

De acordo com o modelo de valorização baseado numa análise quantitativa que a M&G emprega para identificar as partes mais baratas do mercado – que coincidem habitualmente com as menos queridas dos investidores –, agora mesmo os ativos mais atrativos são as ações turcas, indianas, coreanas e chinesas (ações de Hong Kong e Taiwan). “Comprar ações chinesas ou turcas parece muito arriscado, mas o que estão a dizer as valorizações é que o risco está mais do que compensado”, assume Fishwick.

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Por outro lado, não considera que a bolsa americana esteja especialmente cara: “Eu diria que o S&P 500 tem uma valorização neutra. As cotadas apresentaram resultados melhores do que o esperado e, portanto, aumentaram o número de surpresas positivas”. Podemos observar que as “valorizações mais caras estão nos ativos considerados seguros, como consumo básico. Por outro lado, os bancos, algumas partes do sector industrial ou os valores cíclicos, apresentam valorizações muito baixas”.

O especialista mostra ceticismo relativamente aos parâmetros que se aplicam para avaliar o índice: “o mercado americano está caro segundo o PER ajustado ciclicamente, mas achamos que não é um indicador muito fiável, porque é parte da psicologia dos investidores”. Fishwick acrescenta que “agora há poucos mercados que pareçam muito caros, mas há alguns cujas valorizações parecem muito reduzidas”.

O que esperar de 2017

Nos próximos meses está programada uma agenda com eventos que prometem ser muito emotivos para os investidores. Porém, o especialista está tranquilo: “Em 2016, a surpresa foram os eventos em si (como o Brexit), mas não a reação dos mercados. Se nos próximos meses se produzir uma reversão material, provavelmente será motivada por algo em que os investidores estão a pensar há algum tempo.” Estar tranquilo não significa estar relaxado e esta diferença é muito importante: “Se o mercado se relaxar demasiado, produz-se um ajuste de valorizações, reduzem-se as exposições como uma reação ao risco de otimismo excessivo”.

A política dos bancos centrais também representa um papel chave na psicologia dos investidores. Uma das expectativas de Fishwick é que existem possibilidades de que se produza um Taper Tantrum na Europa. E faz outro esclarecimento muito importante. “Não creio que vá necessariamente acontecer, mas devemos admitir que as medidas do BCE atuam como um mecanismo de transmissão sobre a psicologia dos investidores. Da mesma maneira, ainda que eu pense que a saída do QE não vai ser importante, devemos pensar se é algo que preocupa os outros. Então temos que nos preocupar também, porque nos parece um componente importante da volatilidade”.  

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