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Crescimento e inflação: a todo o vapor?


Como num ano as coisas podem mudar. No ano passado, as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, estiveram marcadas pelas dúvidas sobre as perspetivas da economia mundial. Este ano, no entanto, o FMI reviu em alta as suas previsões e as reuniões centraram-se no tema do crescimento sustentável.

Os indicadores adiantados sugerem que o crescimento continuará a ser robusto graças, em grande medida, à sincronização do ciclo económico atual, no qual tanto os EUA como a Europa e o Japão avançam com força.

Não restam dúvidas de que as políticas monetárias expansivas têm influenciado este bom comportamento, bem como a recuperação dos preços das matérias primas e a resiliência que a economia chinesa tem demonstrado.

Também parece que se está a reativar o investimento, sobretudo nos EUA. Embora este esteja a ser um dos ciclos expansivos mais longos da história, também está a ser um dos mais débeis no que diz respeito ao investimento (capex) norte-americano, sobretudo o empresarial.

As explicações para este fenómeno centram-se na diferente natureza do crescimento norte-americano (maior crescimento em serviços intensivos em mão de obra e menos na indústria, intensiva em capital) e no quão difícil é medir o custo da tecnologia.

O quebra-cabeças da inflação: Deveríamos esquecer-nos da curva de Phillips?

A recuperação do crescimento mundial tem melhorado o sentimento e tem impulsionado os mercados. No entanto, o comportamento da inflação desconcerta tanto os investidores como os banqueiros centrais. Tendo em conta que o desemprego se tem reduzido, o consenso esperava que se tivesse produzido uma aceleração dos salários e da inflação. No entanto, encontramo-nos numa recuperação moderada na qual o crescimento não é suficientemente forte para fazer subir os preços.

O cerne da questão está a curva da Phillips, que descreve a relação entre o desemprego e o crescimento salarial, pelo que a queda do desemprego se traduz em salários mais altos e vice-versa. O problema é que a curva parece ter perdido a sua vigência neste ciclo e inclusive há quem argumente que a relação se rompeu já há pelo menos algumas décadas1.

Esta constatação provocou uma espécie de crise intelectual entre os banqueiros centrais, para quem a curva de Phillips representava uma bússola que guiava a política monetária.

Seria útil contar com uma bússola mais orientada

No debate sobre se a curva de Phillips continua a ser útil na atualidade, os economistas dividem-se basicamente em dois grupo. Para o primeiro deles, os bancos centrais deveriam admitir que a relação já não funciona e procurar outro guia para as suas políticas monetárias. O segundo grupo defende que se continue a usar a curva, mas que se estudem com mais profundidade os factores subjacentes. É a diferença entre tentar que a bússola funcione melhor ou atirá-la para o lixo.

Na nossa opinião, os bancos centrais não deveriam abandonar a curva de Phillips. Para lá da questão de como a substituiríamos, acreditamos que ainda existe muita margem para a sua melhoria.

Por exemplo, se se ajustasse o desemprego através de factores como o trabalho a tempo parcial ou pelos contratos temporários, poderíamos obter uma visão mais certeira das pressões salariais e inflacionárias. Analisando as brechas da produção à escala mundial, em vez de local, também se poderiam obter dados mais úteis.

Os próximos meses representarão uma prova dura, já que é provável que os sinais de fortalecimento da economia mundial que temos comentado contribuam para  a criação de mais emprego. Num contexto em que, finalmente, poderemos começar a ver um aumento de inflação, seria útil contar com uma bússola melhor.

Keith Wade será um dos especialistas que participará na 17ª Conferência de Clientes da Schroders que se celebrará no próximo dia 5 de dezembro em Lisboa.

1 Consulte aqui a apresentação “Through the looking glass”, Claudio Borio, Banco de Pagamentos Internacionais, OMFIF City lecture, 22 de setembro de 2017

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