Conselhos para gestores e investidores sobre como se proteger face ao risco de liquidez


Para os gestores de ativos, a liquidez é a capacidade de atender aos pedidos de reembolso sem que isso afete de forma significativa o valor e a estrutura da carteira e no melhor dos interesses dos investidores, ou seja, sem que a afete a estrutura ou a avaliação dos ativos do fundo. A liquidez depende de muitos fatores como o contexto macroeconómico, as condições do mercado, e bid-ask spread e a própria estratégia de liquidação do fundo. É um tema que preocupa gestores e investidores, sobretudo, após o caso Woodford, o qual provocou uma grande agitação mediática, particularmente no Reino Unido. Isto obrigou o regulador britânico a reagir rapidamente.

A 30 de setembro, a Financial Conduct Authority (FCA) impôs novas normas de liquidez para os fundos com o objetivo de proteger os investidores em fundos abertos que investem em ativos difíceis de vender. A partir de setembro de 2020, os produtos que entrem dentro da nova categoria de fundos que investem em ativos inerentemente ilíquidos estarão sujeitos a regras de informação mais rigorosas e a uma maior supervisão por parte do depositário e deverão contar com planos de contingência que minimizem o risco de liquidez. Além disso, a FCA estabelecerá um novo requisito pelo qual os fundos se verão obrigados a suspender a negociação se existirem dúvidas sobre o valor de ativos que representem pelo menos 20% das suas carteiras.

Inicialmente, esta norma só se aplicará aos fundos imobiliários, mas a FCA está a planear ampliá-la para o resto da indústria. Além disso, em setembro de 2020 entrarão em vigor as novas normas de ESMA sobre as provas de resistência (teste de stress) às quais deverão submeter os fundos UCITS e alternativos (AIF) domiciliados na UE. Estas normas foram concebidas para melhorar os padrões e a consistência dos testes de stress que os gestores realizam, com o objetivo de fomentar a convergência dos procedimentos empregues por diferentes países das UE.

Segundo Pascal Blanqué, diretor de Investimentos da Amundi, e Vicent Mortier, diretor adjunto de Investimentos na entidade, ainda que os reguladores estejam a estabelecer diretrizes e procedimentos comuns para proteger os investidores do risco de liquidez, ainda nos encontramos nas primeiras fases do processo.

Isto significa que, por agora, são os próprios gestores de ativos e investidores que têm de avaliar os riscos de liquidez. Mas... que procedimentos seguir para o fazer? No caso dos gestores de fundos, Blanqué e Mortier explicam que estes dispõem de diversas ferramentas que os ajudam a fazer uma boa gestão da liquidez e que podem utilizar de forma regular ou no caso de acontecer uma crise liquidez. Tratam-se das seguintes:

Supervisão da liquidez: a gestão da liquidez deve fazer parte dos processo de investimento dos fundos, incluindo a nível de grupo. “Tem como objetivo melhorar a gestão do risco de liquidez e apoia-se num completo conjunto de ferramentas como testes de stress, análises de cenários, monitorização dos indicadores do mercado e divisão por classe de ativos tanto a nível de fundo como de sociedade gestora. Idealmente, os gestores de ativos devem realizar testes de stress diários para garantir que serão capazes de atender aos pedidos de reembolso”.

Swing prices: esta ferramenta tem como objetivo proteger os investidores existentes do efeito de diluição sobre a rentabilidade do fundo que as subscrições ou reembolsos realizados por outros investidores do fundo poderão causar.

Almofada de liquidez (liquidity buffer): a almofada de liquidez melhora a capacidade de um fundo de contrariar as más condições de mercado.

Gestão da crise de liquidez: estas ferramentas abarcam processos ad hoc destinados a coordenar as equipas durante uma grave crise de liquidez.

De acordo com Blanqué e Mortier, estes passos permitem identificar áreas onde pode existir risco de liquidez, tomar as medidas necessárias – se for possível – e ajustar as alocações para que a carteira resista melhor a um potencial choque de liquidez. Mas... e o que podem fazer os investidores para se proteger do risco de liquidez? Os especialistas destacam quatro:

1. Incluir considerações relativas à liquidez nos seus processos de alocação de ativos e aumentar a percentagem de obrigações líquidas e de maior qualidade para que atuem como almofada de liquidez.

2. Evitar a concentração em posições muito concorridas (crowded trades) e incluir considerações relativas à liquidez no processo de seleção de ideias de investimento.

3. Evitar os investimentos excessivamente alavancados que podem estar mais expostas ao risco de liquidez.

4. Avaliar os processos de gestão do risco de liquidez do gestor do fundo.

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