Como uma gestora está a usar o big data para detetar sinais de mudanças na inflação


A inflação vai voltar? É o tema que atualmente está no centro das conversas das gestoras com os seus clientes, algo lógico tendo em conta que a política monetária aplicada pelos bancos centrais pode afetar de forma importante a evolução dos preços e isto pode condicionar o comportamento dos mercados financeiros. Algumas gestoras estão a apoiar-se nas ferramentas de big data para tratar de prever para onde se dirige a inflação. É o caso da Amundi.

A empresa esteve a trabalhar ativamente para encontrar indicadores que podem ajudar a prever uma potencial surpresa. “Fizemo-lo mediante a compilação de uma série histórica semanal de palavras relacionadas com a inflação, como, por exemplo, IPC ouro e inflação, petróleo e inflação da Google Trends, criando o nosso Inflation Focus Track Index”, explica Pascal Blanqué, diretor de Investimentos na Amundi, que revela exatamente em que consiste o processo.

“Consideramos a popularidade destas palavras na web, calculamos o poder estatístico integrado nelas para prever a dinâmicas dos preços, e, finalmente, definimos um enquadramento através do qual mapeamos períodos de tempo nos quais a concentração da web em temas de inflação é alta ou baixa. Atualmente, este indicador assinala uma estabilização temporária do foco da inflação devido à recessão e ao medo de novos confinamentos”, refere o especialista.

Segundo Blanqué, eventualmente poderá surgir uma nova narrativa sobre uma maior inflação e, ao mesmo tempo, poderá ganhar forma uma nova ordem, de forma semelhante ao que aconteceu nos anos 70 (já que a desglobalização vem com a monetização da dívida). “Poderá dizer-se que as mudanças nas narrativas e nos regimes são a única sequência na qual os investidores podem extrair valor de forma sistemática, dado que o resto das vezes têm de enfrentar mercados mais eficientes que não lhes permitem fazê-lo”.

Na sua opinião, neste processo de ajuste, os investidores deverão poder evitar padrões de alocação de ativos restritos e manter um alto nível de flexibilidade e liquidez para aproveitar as oportunidades que surgem das ineficiências e deslocação. “Neste sentido, a habilidade para identificar os primeiros sinais e padrões destas mudanças é crucial”, adverte. “Por isso, é provável que o big data e a inteligência artificial voltem a ser mais importantes para o mundo dos investimentos, pois abrem a possibilidade de controlar esses padrões e de os utilizar para entender e fazer melhores previsões das tendências”.

No que concerne a inflação, Blanqué acredita que, dado que a visibilidade em torno dos efeitos secundários estruturais da COVID-19 é escassa e considerando que os dados disponíveis são limitados, os investidores deverão procurar técnicas de análise inovadoras no big data, utilizando os indicadores de alta frequência que podem oferecer perspetivas que capturem as primeiras mudanças e que antecipem as tendências.

“Para os investidores, esta fase tem de ser gerida com cuidado (não podem ignorar o dia depois), mas também devem ser cautelosos e seletivos. Na batalha das imagens e narrativas, ainda não desapareceram as vinculadas à COVID-19, apenas passaram para segundo plano. É possível que ressurjam antes do estalar de uma nova fase na crise e que, ao mesmo tempo, uma nova ordem comece a sua fase inicial”, conclui.

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