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Como interpretar os dados de crescimento do PIB chinês


Há algumas semanas o National Bureau of Statistics of China, o instituto responsável pela compilação e divulgação de estatísticas no país, divulgou os dados relativos ao crescimento anual do produto interno bruto do país. Não se viram supresas, nem por parte de Pequim, que publicou um crescimento do PIB real de 6,9%, perto da meta oficial de 7% anunciada um ano antes, nem por parte dos analistas económicos, que rapidamente qualificaram como fraude o valor divulgado, e voltaram a enfatizar a irrelevância das estatísticas macroeconómicas chinesas para entender o que está efetivamente a ocorrer na China.

Ainda que este artigo não pretenda defender a suposta qualidade das estatísticas chinesas, a superficialidade da análise efetuada não pode passar em branco. Na continuação, farei uma análise mais detalhada das razões porque as estatísticas do PIB deveriam ser interpretadas com cuidado na altura de formar uma opinião sobre a China, e também explicarei porque é que a razão mais utilizada pelos analistas para criticar estas estatísticas (manipulação por parte das autoridades) é na realidade a menos relevante.

Há quatro razões pelas quais o PIB chinês deverá ser lido com precaução, ordenadas da menos para a mais “sofisticada”, e espero mostrar que mesmo que estas estatísticas fossem completamente fidedignas, os dados do PIB chinês teriam um valor relativo. Por outras palavras, mesmo que o processo de publicação destes dados estivesse livre de qualquer tipo de desvio, não seria de surpreender que Pequim alcancasse os seus objetivos de crescimento com tanta facilidade e precisão.

A primeira razão pela qual os dados do PIB não são tão úteis e Pequim alcança sempre o seu objetivos de crescimento é a mais famosa entre os analistas económicos. Na China, o governo central e (especialmente) os governos locais, têm fortes incentivos para alcançar os seus objetivos: o governo central, para mostrar ao resto do mundo a sua capacidade de controlo da economia, e à população chinesa o grau de progresso económico sob o mandato do partido comunista, e as autoridades locais, para demonstrar ao governo central que os objetivos fixados são cumpridos e que são funcionários muito competentes. Creio que esta história é bem conhecida e não requer elaboração adicional.

A segunda razão é que, mesmo que as autoridades locais refletissem fielmente o nível de gastos em cada período, o governo central teria uma grande margem para manipular os dados do PIB. A razão passa pelo facto dos dados recebidos pelo governo central estarem determinadas em termos nominais (consumo nominal, investimento nominal, etc.), pelo que para a conversão em termos reais se executar (os tais 6,9%), é necessária uma medida de inflação. Considerando que o governo pode mudar a ponderação de bens na altura de construir o índice de preços (poderá decidir, por exemplo, sub-ponderar os bens que sofreram elevado crescimento dos preços), para um determinado PIB nominal, o governo pode decidir a alocação entre crescimento real e inflação. Considerando que a inflação na China tem sido baixa recentemente (mais ainda tendo em conta o enorme crescimento experienciado), e bastante estável ao longo dos anos, será de considerar a hipótese de que o governo tenha vindo a manter a inflação artificialmente baixa de uma forma persistente (e, além disso, eliminando a sua volatilidade, ao suavizar as séries). Para isso poderá estar a sobrevalorizar, ao mesmo tempo, o cresimento em termos reais. Em épocas de crescimento em baixa (como nos últimos anos), isto significa que os valores de crescimento do PIB real são estimados em alta e a inflação em baixa, enquanto que em épocas de crescimento em alta ocorreu o inverso: crescimento sub-valorizado e inflação sobre-valorizada. Em conclusão, isto implica que o PIB chinês tem sido mais volátil do que o que as estatísticas realmente refletem.

Por outro lado, suponhamos que nenhuma das razões anteriores se verifica. A terceira razão pela qual seria fácil atingir os níveis de PIB estimados é a possibilidade que Peqium tem de criar tantas receitas quanto queira. Este é um ponto que muitos analistas ocidentais têm dificuldade em entender: em oposição às economias ocidentais, Pequim tem conseguido criar receitas através do nível de investimento, graças ao controlo de criação de crédito bancário. Ou seja, a China criou crescimento económico fixando, simplesmente, a proporção de investimento no PIB. No entanto, ao contrário de outros “milagres” de crescimento económico intensivos em investimento (como os EUA na década de 1830, a Alemanha em 1930 e o Brasil em 1970), a China tem podido manter este modelo ao longo do tempos, mais que qualquer outro país, devido à sua posição na balança de pagamentos (noutros casos, a expansão económica produz entradas de capital, valorização da moeda, deficits na balança de pagamentos e eventualmente uma crise, para ajustar o desiquilibrio externo). A singularidade da China, em termos históricos,  não foi a capacidade de decisão da criação de receitas, mas sim a possibilidade de manter ao longo do tempo um modelo dirigido pelo investimento sem se verificarem desiquilibrios ocasionais da conta corrente.

Como corolário da terceira razão, a quarta razão é de que o valor do PIB, por si só, é pouco informativo dos desafios que a China enfrenta a médio prazo. Desde 2007 e dadas as restrições externas de um mundo com deficits crónicos na procura, a China criou procura interna à custa da expansão do crédito. Em 2008, com níveis baixos de dívida, esta estratégia era fazível, considerando que havia espaço para aumentar os passivos, mas não agora que a a dívida das empresas não financeiras supera os 180% do PIB. Considerando que o processo de reequilíbrio da economia chinesa, de uma economia suportada pelo investimento para uma suportada pelo consumo, é inevitável e gerará aumentos adicionais do volume de dívida, (especialmente nas indústrias associadas às matérias primas e aos bens de equipamento) no curto prazo, o mais certo é que continuar este processo aumente ainda mais os volumes de dívida, ainda que a curto prazo seja uma opção mais apetecível para Pequim. No caso do processo de reequilibrio implicar menor crescimento do PIB, então um crescimento alto seria certamente um dado muito negativo, numa perspectiva de médio prazo. Portanto, os dados do PIB não podem ser interpretados se não for entendida previamente a relação entre PIB, dívida e reorientação da economia para o consumo.

Resumindo, a publicação de dados do PIB chinês não pode ser interpretada com ligeireza. No pior dos casos (supondo que os dados não refletem fielmente a atividade), mostra as prioridades na política económica estabelecida por Pequim. Um crescimento alto e apoiado em mais investimento implicaria simplesmente que Pequim não entendeu a dinâmica da dívida ou, (mais provavelmente) que a resistência política à mudança é significativa.

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