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Como explicar aos clientes que continuar a investir em depósitos implica estar a perder dinheiro?


Depósitos... Um produto financeiro que se tornou muito popular na era pré-crise financeira numa altura em que ofereciam rentabilidades próximas dos 5%. Apesar de atualmente a sua rentabilidade estar em média em níveis próximos de 0%, este continua a ser o produto favorito das famílias dos dois países ibéricos, já que tanto em Portugal como em Espanha o montante alocado a depósitos é elevado.

Em Portugal, no final de 2018, por exemplo, mais de 45% do património financeiro dos agregados familiares portugueses estava alocado a moedas e depósitos, número que se traduz em mais de 182 mil milhões de euros. De acordo com dados divulgados pelo Banco de Portugal, no fim de dezembro de 2019, os depósitos de particulares nos bancos residentes ascendiam aos 150,1 mil milhões de euros. 

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Fonte: Banco de Portugal

No país vizinho os depósitos são igualmente populares. Segundo os últimos dados publicados pelo Banco de Espanha, as famílias espanholas contam com 852.900 milhões de euros em depósitos. O número não só representa um novo recorde histórico como também pode aumentar tendo em conta a crescente incerteza que rodeia os mercados financeiros.

Esta aversão ao risco financeiro repete-se também no resto da Europa. De facto, a Bankia Estudios acaba de publicar a evolução dos depósitos nos países da zona euro que mostram, segundo os dados do BCE, que o aumento mensal do saldo de depósitos de empresas e famílias cresceu 0,5% em dezembro. Um número inferior aos 0,9% do mês de novembro e que se justifica pelo retrocesso visto nos depósitos das empresas. Ao fim e ao cabo, é preciso recordar que ao contrário do que acontece com os particulares, nos últimos meses as entidades financeiras começaram a cobrar às empresas para manterem o dinheiro em depósitos num contexto em que os próprios bancos assumem uma taxa negativa de -0,50% pelos seus depósitos no BCE.

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Fonte: Bankia Estudios

Não obstante, os bancos não têm interesse, pelo menos atualmente, em aplicar a mesma política aos clientes particulares o que dissuade muitos de realizarem a tão esperada mudança de depósitos para outros produtos de aforro que tanto reclama o sector. Isto não quer dizer que os milhões de cidadãos ibéricos que têm o dinheiro em depósitos ou contas correntes não estejam já a perder dinheiro. “Um dos grandes handicaps de manter o seu depósito a 0% é a inflação. O BCE tem uma obsessão no seu mandato que é a de conseguir alcançar uma inflação de 2% na Europa. Se o depósito paga 0% e a inflação (o que sobe o custo de vida) é de 2%, estará a perder poder de compra todos os anos, ano após ano. É a perda que não dói”, afirma Borja Rubí, gestor de patrimónios na Diaphanum.

Uma ideia que também defendem na Allianz Global Investors. No seu relatório Using the 7 habits of successful investors, o segundo conselho que dá aos investidores é o de ligar a tomada de decisões à “preservação de capital” em vez de o ligar à “segurança”. “A segurança muitas vezes é considerada um sinónimo de ausência de flutuações de preços. Nos últimos anos, foram os mercados de valores, em particular, os que nos enviaram para uma montanha-russa. O facto dos investidores quererem evitar as flutuações de preços é mais que compreensível nestas circunstâncias. Não obstante, ao fazê-lo, correm  o risco de perder o poder de compra, o que é ainda mais desagradável considerando que juro pago é praticamente nulo atualmente”, apontam na gestora.

Demonstram-no com um gráfico no qual calculam a perda de poder de compra que representará manter o investimento em produtos de 0% num contexto de inflação que se aproxime do objetivo de 2% que o BCE pretende. “Suponhamos que escondemos 100 euros debaixo da almofada. Com base numa taxa de inflação que está em redor do objetivo a médio prazo do Banco Central Europeu de um pouco menos de 2% por ano, só poderemos comprar bens num valor de pouco mais de 80 euros em dez anos”, apontam. E fazem o exercício também a 20 anos (ver gráfico) para concluir a ideia de que, portanto, “o maior risco é não assumir risco”.

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Isso refere-se ao futuro, mas a realidade é que são muitos os anos nos quais os investidores que mantêm os seus aforros em depósitos estão a perder dinheiro em termos reais (quando se desconta a rentabilidade nominal à inflação). De facto, o IPC anual em 2018 foi de 1,2%, de 1,1% em 2017 e de 1,6% em 2016 enquanto os depósitos com prazo de até um ano deram rentabilidades médias de 0,05%, 0,07% e 0,10%, o que implicam rentabilidades reais negativas. Quanto a 2019, a taxa de inflação situou-se nos 0,8% e a rentabilidade média do depósito a 12 meses, nos 0,03%, o que implica uma rentabilidade real negativa de 0,77%.

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