Como estão os gestores de ativos alternativos a gerir o regresso da volatilidade?


O regresso da volatilidade representa grandes desafios para os gestores responsáveis de vários ativos e abordagens de risco. Uma das áreas que está a atravessar mais dificuldades é a gestão de carteiras conservadoras (ler mais). A outra área é a da gestão alternativa e de retorno absoluto, onde se soma ao desafio de ultrapassar o mercado, a dificuldade para gerir corretamente os orçamentos de risco.

De facto, muitos gestores de alternativos estão a optar por adotar posições mais cautelosas, tal como especifica da Lyxor AM, o estratega senior Philippe Ferreira: “Vemos claramente que há mais dinheiro em carteiras, menos tomada de risco relativamente às ações e uma reorientação para os Estados Unidos por parte de gestoras diversificadas”. Ferreira também constata que “os gestores de hedge funds trabalham com menor alavancagem, dadas as incertezas em várias frentes como a inflação, a política monetária, o regime da correlação obrigações/ações e o risco político (guerras comerciais; Itália) entre outros fatores”.

François Collet, gestor de retorno absoluto da DNCA (afiliada à Natixis IM) foca a sua análise noutro efeito colateral do regresso da volatilidade: a alteração das médias históricas. “O que queremos evitar é a distorção, porque houve um período muito longo em que a volatilidade esteve muito baixa nas obrigações. Por exemplo, há um ano, a dívida subordinada era menos volátil do que as bunds, pelo que um modelo quantitativo nos diria que naquele momento as CoCos eram menos arriscadas do que as bunds a dez anos, algo que obviamente não é assim”. Para encurtar estas distorções, o gestor recomenda efetuar análises sobre o comportamento histórico da volatilidade, tanto a muito longo prazo como no muito curto prazo.

Risco e oportunidade

Dito isto, é de relembrar que foi precisamente a ausência de volatilidade que representou muitos problemas para os gestores de ativos alternativos, especialmente nos hedge funds: “Os últimos dez anos foram muito difíceis para os hedge funds, porque desde 2009 os mercados têm estado dominados por um contexto de liquidez global e QE que teve dois impactos evidentes: a queda da volatilidade e a queda das taxas de juro. Estes dois fatores foram difíceis para os gestores hedge poderem gerar valor”, explica Vaqar Zuberi, responsável de hedge funds da Mirabaud.

A perspetiva da empresa é a de que a volatilidade chegou para ficar, até ao ponto de acreditarem que a próxima década vai ser muito diferente do período de 2008 – 2018: “Viveremos num mundo com um crescimento global de 2% nos próximos cinco a dez anos e isto irá gerará ganhadores e perdedores”.

Zuberi especifica que começaram a observar uma alteração de tendências a partir do quarto trimestre de 2015, quando o seu fundo Haussman (com um track record de 45 anos) começou a gerar uma performance positiva depois de vários anos no negativo. Esta rentabilidade é imputável, na sua opinião, ao facto da cotação das empresas começar a responder outra vez a notícias fundamentais, depois de dez anos de influência da macroeconomia.

Essas alterações são agora mais evidentes e têm que ver com a inversão das políticas monetárias dos bancos centrais, que estão a provocar um aumento na dispersão entre ativos e uma queda da correlação das ações. Por exemplo, neste ano há uma lacuna de 18% entre o setor utilities e o tecnológico, e o estilo value perde à volta de 1%, face a 9% crescente do growth”, especifica o especialista, que assegura que este aumento da dispersão entre setores está a ser positivo para os hedge funds. “Quem quiser fazer dinheiro este ano, terá de se posicionar longo em tecnologias da informação (IT) e consumo discricionário, e curto em utilites e consumo básico”, afirma o especialista.

O episódio italiano

“Este ano já vimos muitas alterações no regime de volatilidade em muitas classes de ativos e está a mudar muito mais depressa do que antes”, insiste o gestor da DNCA. Dá como paradigma ao forte movimento vendedor intradiário que registaram obrigações italianas de menor duração nos finais de maio: “O movimento que aconteceu no dia 29 de maio foi 100 vezes maior do que a média de rotação diária. Se se tivesse realizado um índice de ações como o Euro Stoxx, teria sido equivalente a uma queda de 50% num dia. Isto teve impacto sobre o risco que pode assumir agora sobre os BTP e do resto de ativos de obrigações. Realizou-se uma revalorização maciça do risco”.

O resultado quantificado por Collet é que, dependendo do ponto da curva, agora a volatilidade da dívida soberana italiana é entre cinco e dez vezes mais elevada do que antes de 29 de maio: “Isso significa que, para o mesmo grau de risco, tem de se investir numa quantidade de BTP entre cinco e 10 vezes inferior. Quando se gere posições alavancadas, como é o caso dos bancos de investimento e dos hedge funds, este aumento de volatilidade obriga-se a diminuir posições”.

A alteração do risco está a ter também, um impacto óbvio sobre as correlações: “Nos princípios de maio, para cobrir cerca de 1% do BTP com bunds teria de vender cerca de 1% de bunds. Na última semana de maio já se precisava de comprar cerca de 10% de bunds”, explica Collet. É por este motivo que, apesar do aumento das yields, o gestor considera que o preço atual das obrigações italianas não oferece um bom ponto de entrada, pelo contrário: “Hoje são menos apelativos do que eram há cerca de dois meses, porque o aumento da volatilidade foi superior ao aumento das yields. Como a volatilidade vai ficar, isto significa que vamos exigir um prémio maior para investir em ativos italianos”, afirma. De facto, devido a esta forte incerteza Collet alerta para o facto de “existir uma forte probabilidade de que aconteça uma diminuição no rating soberano de Itália antes do outono”.

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