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Colher o alfa numa abordagem macro


Rahul Mathur é gestor na equipa de Global Rates and Currency da GAM, a equipa responsável pela gestão da estratégia GAM Global Rates que o especialista da casa suíça explica em detalhe à Funds People. “Gerimos uma estratégia macro global que lançámos sob formato hedge fund em 2004 e oferecemos, mais recentemente, sob o formato UCITS. O nosso histórico longo prova o nosso valor e diferencia-nos dos nossos concorrentes no segmento macro global, especialmente porque somos muito tradicionais, quase puristas, na nossa abordagem. Nomeadamente, focamos apenas em duas classes de ativos, fixed income e moedas, e, dentro da primeira, apenas em dívida soberana”, introduz o gestor.

Com um objetivo de retorno de um dígito elevado e um nível de risco na mesma amplitude, a equipa de gestão do fundo aponta para um rácio de Sharpe em torno da unidade. E o histórico tem provado essa capacidade de gerar rentabilidade com um risco controlado. De facto, desde o início da estratégia o retorno atinge os 8% anualizados com um desvio padrão semelhante. “Na nossa opinião, um dos pontos chave da nossa estratégia é proporcionar aos participantes o acesso a retornos semelhantes aos das ações, com níveis de risco mais característicos das obrigações e com um perfil de correlação nula. É o nosso grande foco: gerar alfa, ao invés de colher o beta ou o carry dos ativos”, esclarece.

Rahul Mathur GAMContudo, Rahul Mathur tem enfrentado um contexto de mercado muito pouco amigável para a estratégia, o que se tem refletido num comportamento mais plano. Isto resulta, segundo o gestor, da amálgama de políticas monetárias pouco convencionais que se tem configurado numa “maré que leva todos os barcos”. “No entanto, desde meados do ano passado que alguma coisa mudou. Começámos a ver muito maior divergência entre as economias e os respetivos ciclos económicos, o que traz consigo oportunidades”. Um dos exemplos mais recentes e marcantes é, segundo o profissional da GAM, os movimentos e atitudes do Norges Bank e do RiksBank na Escandinávia. “Um dos temas que temos explorado desde o ano passado é uma visão construtiva para as economias escandinavas, tanto na vertente FX como em fixed income. Apenas na segunda metade do ano passado começámos a ver os bancos centrais a reconhecer que as suas economias estavam a comportar-se bem. Um dos exemplos mais óbvios é a Suécia. Até dezembro as taxas do país estavam abaixo das europeias. Isto, apesar de a economia estar a crescer bem, a inflação estar no target e o desemprego em mínimos históricos. Era uma desconexão evidente. Há um limite para o período de tempo em que o banco central pode ignorar os fundamentais. Este é o tipo de estratégia em que focamos verdadeiramente ‘value macro’ no seu núcleo”, acrescenta.​


Universo de investimento

O universo de investimento da estratégia inclui uma diversidade grande de economias desenvolvidas e emergentes para efeitos de diversificação. E a alocação entre elas é puramente oportunística e difícil de reduzir a um número. “A nossa prioridade é sempre colher o alfa dos mercados. É muito frequente que quando temos exposição a uma determinada economia emergente, por exemplo, estejamos igualmente curtos noutras economias emergentes. O que não queremos é ter o beta no portefólio. Um bom exemplo disso é o peso mexicano. Temos estado muito construtivos na moeda, mas quem tenha entrado neste trade contra o dólar americano tem perdido dinheiro. Assim, nós estamos longos no peso, mas curtos num cabaz de diversas moedas, de países desenvolvidos e emergentes, para realmente capturar o prémio de risco que é mais pertinente”, explica Rahul Mathur.

A estratégia é, deste modo, agnóstica no que se refere ao contexto de mercado. “O nosso trabalho é fazer dinheiro independentemente do momento do ciclo de mercado. E tudo isto suporta-se na nossa forma de estruturar as posições, o que acontece no sentido de minimizar a correlação com os mercados risk on, risk off”, comenta. “Como apenas focamos em duas classes de ativos, fixed income e moedas, o que fazemos a cada momento é desenhar os trades no sentido de manter a correlação em mínimos. Em instrumentos de rendimento fixo, por exemplo, uma das oportunidades mais fortes que vemos no momento é em obrigações britânicas. Vemos o mercado muito atento ao Brexit, mas ultimanente as obrigaçõe soberanas britânicas tornaram-se demasiado caras, particularmente em comparação com outros mercados, como o europeu. E se olharmos para as emissões a mais longo prazo, o mercado está a refletir no preço uma convergência com os títulos europeus de longo-prazo. Dadas as nossas expectativas relativamente ao Reino Unido e Zona Euro, a par com o outlook inflacionário em ambas as geografias, acreditamos que essa convergência dificilmente terá lugar. Daí que estejamos curtos em fixed income britânico em relação à Europa”, refere o especialista.

Com Brexit ou sem Brexit

Para Rahul Mathus, este é o tipo de trade que pode fazer dinheiro independentemente do cenário que advier do Brexit. “Num cenário de hard Brexit será adequado assumir que veremos a libra a depreciar rapidamente, e isso alimentaria a inflação. Num cenário de soft Brexit, ou um Brexit negociado, perante o desaparecimento da incerteza, veríamos as áreas mais fracas da economia - capex e balança comercial - a ganhar um impulso e o banco central a reagir em concordância. É por isso que gostamos deste tema e acreditamos que funciona em qualquer um dos cenários. Não mostra qualquer correlação com o facto da economia estar ou não em recessão nem com os sentimentos risk on ou risk off do mercado. Tentamos apenas extrair o alfa da nossa abordagem idiossincrática”. E é assim que resulta uma verdadeira descorrelação, numa estratégia líquida e global. “No médio prazo, não existe qualquer correlação persistente com qualquer classe de ativos e, historicamente, durante períodos de queda dos mercados ou recessão, a estratégia foi capaz de proporcionar uma outperformance significativa”, conclui Rahul Mathur.

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