Cinco temas macro para investir em obrigações nos próximos três anos


O fim da “rédea solta” da liquidez está a representar vários desafios para os investidores nas obrigações. Por enquanto, as respostas mais populares a este desafio centram-se na redução do risco de duração, na aposta de obrigações flexíveis ou na procura de fontes alternativas de rendimentos. O que é certo é que o cenário está em aberto, e assim o reconhecem da Amundi Eric Brard (responsável pelas obrigações), Laurent Crosnier (responsável pelas obrigações globais e diretor de investimentos da sede londrina da Amundi) e Myles Bradshaw (responsável da Global Aggregate).

O fim do dinheiro grátis faz pensar a este trio de especialistas que “a alocação para obrigações continua a ser essencial para diversificar a exposição geral ao risco numa carteira equilibrada, particularmente num momento de volatilidade crescente”, mas com uma nuance: “É altura de os investidores repensarem nas suas abordagens ao investimento, para poderem enfrentar os possíveis cenários que estão por vir”.

O cenário de base dos especialistas é que se mantenha a força do crescimento, com subidas graduais e vigorosas das taxas de juro; calculam pelo menos outras duas subidas da Reserva Federal este ano, mas não descartam a ideia de haver mais se a pressão sobre a inflação se mantiver. Este cenário base prevê também que o BCE termine o seu programa PSPP no último trimestre de 2018, embora mantenha a sua postura complacente, e que o Banco do Japão (BoJ) “provavelmente melhore o seu objetivo sobre as obrigações a dez anos, fazendo com que seja proporcional ao do nível global dos retornos”, para depois começar a recuar na sua política de taxas negativas. Para além disso, esperam que o Banco de Inglaterra (BoE) realize outra subida de taxas este ano. Os especialistas alertam que “será um contexto difícil para a dívida soberana core, mas, em consequência de um contexto de forte crescimento, um contexto ainda construtivo para o crédito”.

Brard, Crosnier e Bradshaw alertam também que a ação dos bancos centrais não será sincronizada, ao encontrar as economias em fases distintas do ciclo, pelo que a divergência irá continuar. Como resultado, antecipam que as obrigações soberanas europeias serão mais vulneráveis que as das norte-americanas, onde começou o processo de revalorização. Na parte do crédito, indicam que “têm de considerar diferentes níveis de endividamento corporativo – estando os EUA mais alavancados do que a Europa – num contexto de spreads de crédito ajustados”. Isto representa que “a seleção a nível setorial e por empresas irá tornar-se cada vez mais importante”.

A terceira recomendação do trio de especialistas é que os investidores deverão considerar a possibilidade de surgirem dois cenários alternativos: “a extensão do ciclo empresarial nos EUA, graças ao incentivo fiscal”, um contexto benéfico tanto para o crédito como para a Fed, que poderia gerir as subidas de taxas com maior suavidade; ou “uma aceleração da inflação”, seja por sobreaquecimento da economia ou por aumento do risco político, que obrigará a Fed a ser mais agressiva. No segundo caso poderá desencadear-se um cenário risk-off em que “se penaliza as empresas mais endividadas e se coloca a dívida soberana norte-americana sob uma pressão severa, particularmente os vencimentos de curta duração”.

Para os representantes da Amundi, estes novos tempos podem pôr à prova “uma abordagem mais tradicional de alocação estática, que beneficiou de um longo período de queda dos rendimentos”. Por exemplo, indicam que, mesmo que um contexto de subidas de taxas e rendimentos crescentes será claramente negativo para as obrigações, na verdade pode ter impactos muito diferentes de acordo com os setores e mercados, e dependerá do ritmo das subidas.

A resposta que Brard, Crosnier e Bradshaw propõem é a construção de uma carteira resistente com alocações na dívida core “para navegar os cenários possíveis futuros e explorar as múltiplas fontes de alfa, transformando possíveis desafios em oportunidades”. A chave do sucesso desta carteira será uma avaliação correta de cinco grandes temas macro que os especialistas identificaram, e que expõem abaixo:

O final do dinheiro fácil, que abrirá diferentes cenários, com várias implicações em diferentes mercados. “os investidores ativos poderão jogar com os movimentos no spread, na curva de yield e nas divisas, dado o final do dinheiro fácil e as ações dos bancos centrais”, comentam os especialistas.

Enfrentar as taxas crescentes: a resposta que a Amundi dá é uma gestão tática de duração, juntamente com a implementação de estratégias de valor relativo entre curvas de yields e dentro da própria curva. “Serão mais relevantes à medida que as taxas sobem, num período em que a duração do mercado está nos máximos históricos”, afirmam os especialistas.

Espremer os mercados maduros: os especialistas indicam que “a seleção de obrigações corporativas irá marcar a diferença, à medida que os mercados de crédito vão ficando maduros, pois os spreads já estão bastantes ajustados em geral”. Recomendam também, procurar fontes de rendimentos em múltiplos setores – incluindo emergentes – com uma abordagem dinâmica. Dentro dos mercados desenvolvidos, a Amundi está otimista na dívida financeira europeia, ao considerar que “as valorizações são relativamente apelativas e que é provável que a qualidade do crédito melhore, à medida que o fortalecimento da economia impulsione o crescimento dos empréstimos e das margens, enquanto se reduz o atraso”.

Risco de liquidez. O trio de especialistas acredita que a gestão deste risco “deverá ser a prioridade dos investidores neste novo contexto de investimento”. Alertam que as condições de liquidez poderão piorar, à medida que os bancos centrais vão reduzindo os seus balanços. O conselho que dão consiste em explorar as oportunidades que surjam em liquidez, mas mantendo um colchão suficiente de dinheiro,  através de alocações táticas na dívida soberana, ou focando-se em estratégias sobre ativos muito líquidos.

Procurar fontes adicionais de diversificação. Os especialistas aconselham a reduzir o risco de concentração, através do investimento em novos segmentos de mercado que estejam pouco correlacionados com as classes de ativos tradicionais, como por exemplo, investindo na dívida pública.

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