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China voltou a ser sistémica: visões sobre as decisões que o gigante asiático pode tomar este ano


A expressão “copo meio vazio ou copo meio cheio” mostra que existem sempre duas formas de enfrentar a mesma situação. No entanto, mais complexo e mais difícil é tomar uma posição definitiva. Provavelmente um bom exemplo disto é a situação económica na China: embora tudo tenha voltado ao ponto de partida depois do difícil começo do ano, ainda existem muitas incógnitas que têm de ser explicadas aos participantes de mercado.

O crescimento do PIB chinês no primeiro trimestre de 2016 foi de 6,7% face aos 6,8% do quarto trimestre do ano passado. Jing Ning, gestora da Fidelity, afirma que é um dado em linha com a previsão da gestora e adianta que “os estímulos focados nos projetos em infraestruturas e no renascimento dos mercados imobiliários nas cidades Tier 1 e 2 poderão apoiar um moderado crescimento económico neste segundo trimestre”. Dito isto, avisa que “a volatilidade irá, seguramente, continuar nos mercados de ações chineses, mesmo que se comece a ver uma estabilização da economia”.

Falta de transparência

O economista-chefe da Amundi, Nicolas Doisy, acredita que “é difícil confiar nos dados oficiais”. “Dependendo das fontes, atualmente a dívida privada e pública chinesa é de 250% e 280% da dívida sobre o PIB, tendo duplicado na última década. Geralmente, quando a dívida cresce a um ritmo tão rápido acaba por terminar mal”, refere o especialista, concluindo que a “China voltou a tornar-se um caso sistémico a nível global”.

“Na última década, especialmente desde 2009, a China aplicou um QE permanente sem necessidade. As autoridades deixaram que a criação de dinheiro se canalizasse através da acumulação de crédito, criando uma bolha financeira que está agora a explodir”, insiste Doisy. O excesso de capacidade resultante da expansão do crédito é especialmente visível “no caso das empresas de propriedade estatal, que se está a endividar desde 2006”, afirma.

Desvalorizar ou não desvalorizar?

Doisy calcula que o renmimbi está sobrevalorizado em 25% face ao dólar como consequência de uma década de estímulos não necessários. Aqui entra em jogo a possibilidade de que a China decida desvalorizar a sua moeda, através de duas opções: uma desvalorização gradual ou uma apenas uma desvalorização de grandes dimensões. “Uma grande desvalorização seria saudável somente se houvesse uma estratégia realmente agressiva por parte das autoridades chinesas para reativar a economia, mas implicaria a implementação de um grande QE e de estímulos fiscais. Portanto, a China não tem razões para efetuar essa estratégia, afirma. O especialista da Amundi recorda que seria um movimento “muito prejudicial para o tecido corporativo chinês, porque muitas empresas estão endividadas em dólares”. “Se a grande desvalorização suceder, será o sinal definitivo de que os chineses perderam o controlo”, refere.

A única solução viável seria um controlo rigoroso sobre os capitais, que na verdade tem acontecido desde janeiro. O economista chefe da Amundi considera que os chineses já não estão a usar a reserva de divisas – que caíram notavelmente nos últimos meses – para defender a moeda: “O que estão a tentar é esterilizar a divisa com o uso de outros truques, como o controlo de capital. A situação atual é insustentável porque escolheram uma desvalorização gradual. A única possibilidade é que o controlo de capital seja eficiente, e isso é muito possível porque a China não é uma democracia”, afirma.

Conclusão

A conclusão de Doisy é um pouco pessimista: “A China é potencialmente um cisne negro, mas é impossível sabê-lo com toda a certeza porque não há transparência”. Para o especialista apenas existe uma saída para evitar uma grande crise sistémica: “Que os EUA, a Europa e a China se coordenem para efetuar políticas fiscais na mesma linha e implementem novos estímulos quantitativos. Mas existe um problema: a falta de confiança.

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