China: Rebalanceamento ou Realavancagem?


O comportamento económico da China nas últimas três décadas foi bastante robusto e abrangente, permitindo extrair centenas de milhões de pessoas de uma economia agrícola de subsistência e, potenciando taxas de poupança bastante elevadas, construir uma estrutura industrial fortemente capital intensiva.

O planeamento económico altamente centralizado permitiu direccionar vagas sucessivas de investimento para estruturas produtivas com necessidades de capital progressivamente mais exigentes, aumentando a capacidade de absorção de trabalhadores oriundos da China rural. A dimensão da força de trabalho disponível para esta migração interna era tal que permitiu aumentar a procura de mão-de-obra sem reflexos significativos na deterioração dos custos do trabalho.

Os ganhos de produtividade subsequentes e a abertura de diversos mercados internacionais às exportações funcionaram como fonte adicional de fundos para novos investimentos. Este modelo de crescimento funcionou bastante bem até cerca de 2008/2009, apoiado numa abordagem “quantitativa”, ou seja, de aumento vigoroso dos inputs (Trabalho e Capital), menosprezando um pouco o filtro “qualitativo” na utilização desses mesmos inputs (Total Factor Productivity).

Vários desequilíbrios foram surgindo, nomeadamente, o peso excessivo do investimento (com as potenciais implicações futuras de um aumento do crédito mal parado no sistema financeiro), capacidade de inovação tolhida pela intervenção estatal, “investimento” feito por alguns governos regionais e empresas estatais muito parecido com desperdício puro, consumo privado condicionado pelas elevadas taxas de poupança das famílias (num contexto de uma rede social de apoio estatal bastante frágil).

A nomeação recente de novos responsáveis políticos foi acompanhada pela expectativa do anúncio e implementação de medidas no sentido de reequilibrar a estrutura da economia chinesa, procurando aumentar a dimensão da procura doméstica (Consumo Privado e Consumo Público) reduzindo a dependência face ao Investimento.

É ainda bastante cedo para se poder aferir da verdadeira intenção da nova liderança, no entanto, alguns pontos merecem ser destacados:

. A manutenção da actual fórmula de crescimento tem tido retornos cada vez menos interessantes, com taxas de variação de crédito concedido com reflexos progressivamente mais fracos no desempenho da economia (indiciando que parte desse crédito adicional não serve para financiar novos investimentos, mas sim para renovar empréstimos já existentes, adiando o reconhecimento de eventuais perdas relacionadas com o mal parado);

. O peso do Consumo Privado não parece ser capaz de compensar o abrandamento decorrente de uma redução do crescimento do investimento.

A realavancagem (aumento do ritmo de concessão de crédito) da economia chinesa poderia adiar a necessidade de ajustamentos no imediato, mas parece-me que seria mais prudente a sinalização robusta de uma alteração de “intenções” por parte do governo chinês privilegiando a “qualidade” do investimento ao invés da “quantidade”.

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