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Chegou o momento de questionar o papel das obrigações governamentais em carteira?


Ações para fazer crescer a carteira e obrigações para a proteger. A tradicional forma 60-40 foi durante décadas a receita para construir carteiras resilientes: as obrigações governamentais como almofada para se proteger em momentos de correção nos ativos de risco. Foi uma máxima que venceu de modo geral. Mas será que continua vigente? No seu último relatório de perspetivas para a segunda metade do ano, no BlackRock Investment Institute abrem o debate. Chegou o momento de questionar o papel das obrigações governamentais em carteira.

Uma das consequências das políticas monetárias acomodatícias foi ancorar as yields das obrigações em níveis mínimos. É o que precisamente desafia as convenções clássicas da construção de carteiras e força os investidores a procurar alternativas. Porque se formou nas obrigações governamentais um cocktail complexo? Por um lado, as perspetivas de rentabilidade são escassas. De facto, no BlackRock Investment Institute preveem retornos negativos de todas as obrigações governamentais de países desenvolvidos para um horizonte a cinco anos. A rentabilidade não é tudo no momento de investir, mas isso leva-nos ao problema seguinte. Porque, por outro lado, a correlação inversa entre obrigações e ações cai à medida que os primeiros se movem numa faixa tão baixa. Isto compromete o papel das obrigações soberanas como âncora. O pior comportamento das obrigações alemãs e japonesas durante a correção no início do ano é um bom exemplo disso. “Não podemos esperar que as obrigações governamentais continuem a ser uma âncora com as yields tão baixas”, defende Vivek Paul, estratega de carteiras sénior na entidade.

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Este contexto leva a gestora a preferir reduzir as alocações a obrigações governamentais. Na sua opinião, os investidores devem rever a sua utilidade num contexto de maior desglobalização, yields mais baixas durante mais tempo e políticas monetárias e fiscais sem precedentes. “Não falamos de reduzir para 0 a exposição, mas dar-lhe um papel mais secundário”, explica Manuel Guitiérrez-Mellado, responsável de Negócio Institucional da BlackRock para Portugal e Espanha.

E que alternativas propõem? Alguns dos ativos que Guitiérrez-Mellado destaca são obrigações ligadas à inflação. Estão conscientes de que nenhum ativo pode substituir diretamente o seu papel como âncora, mas veem nestes últimos uma ideia atrativa. A pressão inflacionista poderá aumentar à medida que o choque deflacionista inicial devido à quebra da procura se dissipe. A desglobalização, as mudanças na regulamentação e os défices poderão ser os catalisadores. E os bancos centrais já deixaram antever que vão tolerar subidas temporárias da inflação acima do seu objetivo.

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