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Chart of the Week - Terá o ponto pior da actual desaceleração ficado já para trás?


(O 'Chart of the Week' desta semana é da autoria de Tiago Lavrador, economista do Novo Banco)

A evolução dos mercados financeiros desde o início de outubro tem ficado marcada por uma melhoria do sentimento dos investidores, traduzindo uma expectativa crescente de que os Estados Unidos e a China venham a alcançar, nas próximas semanas, um acordo comercial, ainda que parcial (o chamado “Phase One Deal”). Importa reconhecer que esta evolução não tem sido linear, sendo muito condicionada pelo intenso fluxo de notícias em torno do tema, induzindo oscilações importantes no sentimento e nos níveis de aversão ao risco, bem patentes no desempenho dos mercados acionistas – em diversos casos renovando máximos históricos – e de dívida pública, onde é evidente a subida de taxas nos últimos dois meses. Alguns indicadores macroeconómicos mais recentes contribuíram, de facto, para uma melhoria do sentimento a nível global, sendo de destacar, na Alemanha, a evolução favorável das encomendas à indústria e das exportações, e uma expressiva melhoria, em novembro, das expectativas para a maior economia europeia. Também para outras economias se têm registado ligeiras melhorias no sector industrial, cujo desempenho tinha vindo a liderar o atual ciclo de desaceleração, sendo de destacar a recuperação de novas encomendas, em especial nos Estados Unidos.

Global_Orders_OECD_November_2019

Novas encomendas, Índices JPMorgan Global PMI (média móvel 3 meses)

Fonte: OECD Economic Outlook November 2019.

Ganhou, assim, algum peso a ideia de uma possível recuperação do crescimento global nos próximos meses. Concretizar-se-á tal expectativa? Se a evolução do mercado de obrigações em agosto e setembro – com as yields da dívida pública alemã a caírem para níveis extremamente baixos – exagerou o pessimismo, a melhoria do sentimento desde outubro deve também ser interpretada com alguma cautela.

As condições monetárias e financeiras favoráveis – graças sobretudo à atuação dos principais bancos centrais –, uma postura ligeiramente mais expansionista da política orçamental, taxas de desemprego baixas e preços e salários com subidas moderadas deverão continuar a afastar o risco de uma recessão no curto prazo. Mas um cenário de recuperação significativa do crescimento será, também, difícil de concretizar. Por um lado, persiste uma elevada incerteza em torno do sucesso das negociações comerciais entre os EUA e a China e das repercussões sobre o comércio e economia globais caso não venha a ser concretizado um acordo (com impacto sobre decisões de investimento e consumo). A última semana ficou, aliás, marcada por um incremento dos níveis de aversão ao risco, traduzindo os receios de que o sucesso das negociações poderá estar muito condicionado pela relação entre os dois países no que respeita à situação de Hong Kong.

É de assinalar, adicionalmente, a persistência da incerteza em torno do Brexit e da futura relação comercial entre o Reino Unido e a UE, as eleições presidenciais americanas de 2020, bem como diversos focos de instabilidade social e geopolítica que permanecem como riscos latentes (Espanha, Itália, Médio Oriente). A possibilidade de elevação, pelos EUA, de tarifas sobre importações de automóveis europeus, decisão relativamente à qual se aguarda um anúncio pela Administração Trump, constitui também um risco negativo a ter em conta.

A informação macroeconómica a divulgar nas próximas semanas será particularmente relevante para avaliar se os sinais mais recentes de estabilização da atividade (e mesmo de alguma, embora ligeira, recuperação), se confirmam, o que consolidaria a perspetiva de que o ponto pior da desaceleração poderá já ter ficado para trás. Em sentido contrário, uma nova deterioração dos dados sugeriria que os recentes sinais de estabilização assentaram, sobretudo, em fatores mais ou menos temporários.

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