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“Não é clara a forma como os agentes endividados poderão gerar os meios necessários para reembolsar os agentes credores”


“As questões que se colocavam há oito anos relativas ao excesso de endividamento não só não foram resolvidas como se agravaramn significativamente”. É a conclusão de Carlos Tavares, Presidente do Conselho de Administração da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) num paper intitulado “A crise financeira: Aprendemos as lições?”, onde se propõe a analisar a evolução de diversos segmentos de mercado 8 anos depois da maior crise financeira desde a Grande Depressão.

O Presidente da entidade reguladora ilustra a sua conclusão com a evolução do endividamento global, apontando que “apenas em algumas economias onde o sector privado se apresentava mais endividado no pré-crise se verificou alguma redução, como foram os casos do Reino Unido, da Irlanda, da Eslovénia e dos Estados Unidos e, mais modestamente, da Alemanha, do Japão, ou mesmo de Portugal. Note-se ainda que os valores indicados no gráfico não incluem a dívida implícita correspondente às responsabilidades constituídas e não cobertas pelos sistemas de segurança social pública. Algumas estimativas apontam para que a inclusão desta dívida implícita elevaria a dívida global para cerca de 400% do PIB, valor que não deixa dúvidas sobre as dificuldades críticas da gestão do problema do endividamento global”.

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Para o profissional, “Portugal não fugiu a este tipo de desenvolvimento, com uma evolução com alguma semelhança com o verificado nas restantes economias, encontrando-se porém entre os membros da UE com maiores níveis de dívida pública e privada”

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Destacando que 16 dos 28 países apresentam dívidas totais superiores a 200% do PIB, Carlos Tavares acrescenta que “o nosso país tem a quarta dívida mais alta, superando inclusivamente a Grécia que apresenta uma dívida privada significativamente menor”.

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Estes níveis de endividamento representam um pesado entrave à recuperação das economias, considerando a “importante parte do produto que terá ser afecta ao serviço da dívida num quadro da sua redução para valores mais razoáveis”. Nomeadamente, o  presidente da CMVM exemplifica que “partindo do valor do endividamento global em 2015 (286% do PIB), a sua redução para o ainda elevado valor de 200% do PIB num prazo de 10 anos, supondo que o valor nominal da dívida não se alterava e uma taxa de juro real de2%, exigiria um crescimento anual do PIB real da ordem dos 5,7% durante 10 anos”

Noutra perspectiva, Carlos Tavares utiliza a equação da dinâmica da dívida e pressupostos de taxas de juros inflação e crescimento normais para concluir que “a mesma redução em 10 anos do rácio da dívida exigiria que todos os anos a economia global gerasse um excedente de quase 25% do PIB totalmente aplicado na amortização da dívida”. Este cálculo tem por base o pressuposto de um diferencial de apenas 0,5% entre a taxa de juro real e o crescimento real do PIB. Se o diferencial fosse de 1%, o excedente requerido elevar-se-ia para cerca de 39% do PIB o que permite destacar a “grande sensibilidade da dinâmica da dívida aos comportamentos relativos das taxas de juro e de crescimento reais” e “a dificuldade da redução da dívida para níveis razoáveis sem afectar ao seu serviço uma parte substancial da riqueza gerada nas economias”.

Em termos gerais, Carlos Tavares conclui que “não é clara a forma como os agentes endividados (famílias, empresas,Estados) poderão gerar os meios necessários para reembolsar os agentes credores”.

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