Carim Habib (Dolat Capital): “Nesta fase o fundamental é permanecer com as carteiras investidas, reforçando a diversificação”


Como é que avalia a reação do BCE e o pacote de medidas anunciadas? 

Sendo absolutamente franco, penso que Christine Lagarde cometeu um gigantesco erro de comunicação, praticamente na “sua estreia na Champions League”.  A comprovar esta minha análise, foi que o seu colega, François Villeroy De Galhau, membro do Conselho do BCE e governador do Banco de França, teve de vir a terreiro redirecionando o discurso ao dizer: “O choque económico causado pelo coronavírus é grave e de grande difusão, mas será temporário. O pacote que o BCE apresentou ontem (12 de março), é coerente, dada a situação económica. Assistimos a uma elevada volatilidade no mercado, mas somos essencialmente guiados pelas condições económicas. Podemos distanciar-nos das regras de capital do BCE para comprar mais dívida de algum país, se necessário. O BCE permanecerá extremamente mobilizado e vigilante nos próximos dias”.

Em termos globais, que reação espera de cada agente?

A extrema magnitude dos movimentos de queda transversal nos mercados financeiros demonstra ser uma reminiscência da crise financeira global de 2008. O impacto da pandemia do Covid-19 ao nível da economia global será grande e acentuado. Nesta fase, parece-nos absolutamente crucial uma resposta coordenada, ao nível do G7+China, nos planos das políticas de saúde pública, fiscal e monetária. Somos francamente céticos sobre a vontade política da atual administração americana em aderir.  No imediato, a maior vulnerabilidade é a enfrentada pela economia real, evidenciada pelo escasso acesso ao crédito das empresas, especialmente as pequenas e médias, mas também das famílias. Esta vulnerabilidade requer uma resposta pronta e firme das autoridades políticas e monetárias, designadamente, via proteção do emprego e do consumo.  Há, no entanto, riscos de 2ª ordem, induzidos pela violenta queda nos mercados de ações e de crédito (especialmente dívida corporativa, high yield e dívida emergente) que podem traduzir-se na precipitação de uma crise de crédito global, aliás esse é o nosso principal receio.  Os setores mais expostos são, nomeadamente, o turismo, lazer, aviação e sobretudo o da energia, pela implosão do preço do petróleo. Não sendo o propósito desta conversa analisarmos a extensão completa do impacto económico e geo-político deste “novo choque petrolífero”, sublinho, no entanto, que há um corolário favorável: a criação de um estímulo fiscal inesperado para os países importadores e a consequente possibilidade de reestabelecimento de reservas estratégicas de petróleo de países como a China, Índia e Japão. Não ignorando a maior complexidade do contexto geo-político atual, o cenário económico e financeiro de hoje parece-nos ser mais robusto do que no início da crise de 2008. A profundidade e duração do impacto económico desta crise pandémica são efetivamente incertas, mas acreditamos que o choque na atividade económica, apesar de violento, deve ser temporário, e acabará por se dissipar. Assumindo que a resposta política necessária seja dada, a atividade económica tenderá à normalização.

Como olham para as carteiras perante este cenário?

Independentemente da turbulência do contexto atual, somos apologistas de que deve manter-se uma perspetiva de longo-prazo nos investimentos e explorar seletivamente as oportunidades que surgem nas crises em geral, esta naturalmente não é exceção. Nesta fase o fundamental é permanecer com as carteiras investidas, evitar incorrer em riscos ideossincráticos, reforçando a diversificação em instrumentos financeiros não complexos, custos baixos e classes de ativos “core” como Ações Globais, Obrigações de Governo com elevada qualidade creditícia e também o Ouro.

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