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Bruno Santos (Novo Banco): “Onde há risco, há oportunidades, particularmente para quem investe a médio/longo prazo”


Pensar em perspetivas para os mercados financeiros, mais do que um processo de adivinhação, é um exercício de estruturação de ideias. Pensar no que vai ser o segundo semestre de 2020 não foge desse exercício ainda que tenha uma grande diferença: o nível de incerteza é o maior desde a grande crise financeira devido ao impacto económico da pandemia a nível mundial. Isto sem esquecer que teremos eleições nos EUA em novembro e, dada a menor probabilidade de Donald Trump ser eleito, o risco de um conflito armado a nível mundial poderá aumentar substancialmente nos próximos meses.

Estamos assim perante um cenário de uma elevadíssima incerteza a nível económico e político que deverá continuar a repercutir-se nos mercados financeiros no segundo semestre. A volatilidade elevada, que duplicou desde fevereiro na generalidade dos ativos financeiros, é o primeiro tema que queríamos destacar para o segundo semestre de 2020.

Os mercados financeiros têm tido uma reação bastante positiva desde finais de março, em resultado, primeiro, dos inúmeros estímulos anunciados pelos bancos centrais e governos a nível mundial e, numa segunda instância, por um otimismo quanto à reabertura da economia e numa recuperação em “V” da atividade.

Acontece, porém, que diferentes recuperações poderão ocorrer passada esta primeira fase de desconfinamento. Uma fase onde o maior conhecimento desta doença permitirá fazer um balanço do impacto estrutural na economia global. Teremos nessa altura uma recuperação acentuada da economia, com o desaparecimento da pandemia após a descoberta de uma cura ou mesmo uma vacina? Ou teremos uma nova paralisação a nível mundial decorrente de uma segunda vaga no Outono/Inverno?

O cenário central delineado pelo Comité de Investimentos do Novo Banco não se baseia nestes pressupostos extremados e acredita que a economia pode evidenciar uma recuperação forte nesta segunda fase pós-reclusão, sendo mesmo possível ter alguma euforia no curto prazo. Depois de um longo confinamento, é natural que a atividade recupere rapidamente uma boa parte do que caiu. No entanto, a elevada incerteza de médio prazo provocada pela doença não deixará a atividade recuperar totalmente, em particular em áreas mais ligadas a consumo de bens duradouros como o imobiliário e setor automóvel e o investimento (fora alguns exemplos muito particulares, é questionável saber que empresas tencionam neste momento aumentar, ou mesmo manter, o investimento planeado para os próximos anos). Neste contexto, consideramos que no segundo semestre o crescimento será apenas moderado, limitando assim o potencial de uma recuperação rápida para o ponto inicial.

O nosso asset allocation reflete isso mesmo, dando preferência a ativos mais seguros como obrigações governamentais e nas ações, uma maior exposição a ações americanas. Isto porque, apesar dos riscos existentes para a economia americana, a resposta dada quer pela Reserva Federal, quer pelo governo têm sido de maior dimensão e com timings de implementação mais curtos. Um carácter menos cíclico do mercado norte-americano pela elevada exposição a tecnologia e saúde foram fatores levados em conta dado o clima de total incerteza. Acreditamos que, apesar das ações europeias constituírem uma boa oportunidade a médio prazo, acarretam um risco muito elevado de execução pelo carácter cíclico do mercado e por muitas dúvidas quanto a estímulos para a economia europeia. Apesar do salto dado pela Comissão Europeia ter sido muito positivo no sentido de emissão conjunta de dívida, o prazo alargado de execução do novo programa de estímulo económico deixa-nos algumas reservas. No global acreditamos que a diversificação mais eficaz nesta conjuntura será a conjugação de ações não cíclicas com dívida pública e ouro uma vez que acreditamos que o crédito, em particular aquele de menor qualidade, não desconta devidamente os riscos económicos atuais.

Além da pandemia, o segundo semestre de 2020 será marcado pelo calendário eleitoral norte-americano. Com a economia em recessão e os tumultos a crescerem por todo o território, o presidente Trump tem visto a sua popularidade a diminuir. Não é certo que impacto isso teria nos mercados financeiros pois a agenda democrata não é tão market friendly. Mas numa conjuntura marcada por um forte antagonismo interno e externo, uma mudança de regime nos EUA até poderá ser bem aceite pelos mercados. Ainda assim não deixa de ser um risco a considerar, até porque estes meses que faltam até às eleições poderão ser usados para “wag the dog”, aumentando potencialmente o risco geopolítico a nível global, quer na Europa, quer na Ásia, onde já se encontra elevado. A recessão provocada pelos efeitos da pandemia, com efeitos mais nefastos na população mais pobre, poderá ainda acelerar a divisão social e contribuir assim para o aumento dos partidos extremistas mais à esquerda e direita. Tendência, já verificada nos últimos anos, poderá pôr em causa alguns dos valores ocidentais como a liberdade e os direitos do homem, valores esses que seriam intocáveis há uns anos. Num ano em que já perdemos tantas coisas que dávamos por seguras, seria um erro ignorar estes movimentos políticos.

Nesta conjuntura o Novo Banco tem como preferência fundos de investimento que deem provas não só de estabilidade nos desempenhos como também minimizem o risco de perdas assimétricas para o investidor. O elevado nível de risco no mercado reforçou a importância destes critérios no nosso modelo de avaliação de fundos, pois independentemente do curto prazo, importa optar por instrumentos que nos ofereçam a maior segurança possível uma vez que temos a consciência que basta um mau ano para colocar em causa a rendibilidade a médio prazo. Mais do que nomes individuais, importa-nos reforçar este critério junto dos nossos clientes tendo em vista a segurança do seu património.

A incerteza sempre fez parte dos mercados financeiros. Esta é provavelmente das expressões mais usadas pelos investidores profissionais neste momento para relativizar alguns movimentos mais atípicos nesta crise. Mas raras vezes nas últimas décadas estivemos perante um total desconhecimento de uma doença que está a condicionar a vida de todos os habitantes do planeta. Assim é de esperar que a volatilidade permaneça elevada nos próximos meses. Mas onde há risco, há oportunidades, particularmente para quem investe a médio/longo prazo.

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