Brasil sob as rédeas de Bolsonaro: primeiras reações das gestoras


Das sondagens à realidade. Tal como já se esperava, o candidato do Partido Social Liberal, Jair Bolsonaro, será o 38º presidente do Brasil, o maior país da América Latina. “Dividido e desiludido, o Brasil está desesperado por uma mudança apesar de abundarem os desafios económicos”, resume Stéphane Monier, diretor de investimentos da Lombard Odier.

Bolsonaro foi o candidato dos mercados desde o início. Cada sondagem que vaticinasse a sua vitória prolongava a subida dos ativos brasileiros e a sua vitória quase maioritária na primeira volta consolidou o rally. O real brasileiro, o grande termómetro do sentimento de mercado, subiu quase 15% desde meados de setembro, deixando para trás o estancamento das demais moedas emergentes. Mas com toda a subida dos ativos brasileiros, inclusive antes do fecho das urnas, importa perguntar que cenário já é descontado.

De momento os investidores já se estão a mostrar hesitantes. No fecho das bolsas europeias o Bovespa já tinha devolvido quase toda a subida do dia e chegou a disparar cerca de 3%.

“O discurso de Bolsonaro depois da sua vitória foi pró-mercado, com o novo presidente a insinuar uma agenda centrada na unificação do país, no combate à corrupção e centrando-se também numa reforma fiscal muito necessária”, diz Paul Greer, gestor de mercados emergentes da Fidelity. “Isto é algo alentador e provavelmente a recente recuperação das ações brasileiras continuará a curto prazo, já que Bolsonaro deverá disfrutar de uma breve lua de mel nos primeiros dias da sua nova administração”.

Estão todas as reformas descontadas?

“Embora as taxas locais tenham subido quase 200 pontos base desde meados de setembro, continuamos a ver valor na curva dada a falta de pressão inflacionista e dado o potencial de uma melhoria fiscal significativa”, defende Delphine Arrighi, gestora do Merian Emerging Market Debt Fund da Merian Global Investors. Chave foi a rápida nomeação de Paulo Guedes como novo ministro das finanças. “Trata-se de um respeitado economista educado em Chicago que tem ambições de devolver ao Brasil o caminho da sustentabilidade fiscal”, descreve Arrighi.

Agora, os mercados vigiam de perto a nomeação do próximo governador do seu banco central se o atual não for reeleito. “O atual presidente da Câmara de Representantes, Rodrigo Maia, é um dos poucos candidatos para esse papel que poderia conseguir o apoio de todos os partidos para a reforma fiscal” afirma Greer. Na sua opinião, também será importante observar a liderança das principais empresas estatais, como a Petrobras e a Eletrobras, assim como os planos de Bolsonaro para privatizar os ativos estatais.

No entanto, não são poucas as vezes que alertam de que a lua de mel dos investidores com Bolsonaro pode ter chegado ao seu fim. Para a equipa da Schroders, o primeiro golpe de realidade pode chegar na segunda metade de 2019, quando a legislatura se deparar na prática com a passagem de emendas complicadas. Isto porque as câmaras estarão em stand by de 22 de dezembro até 4 de fevereiro, somente um mês antes das celebrações de carnaval. Até lá, os mercados dependerão dos sinais que vai enviar o novo presidente. “Demonstrações de que Guedes esteja sendo travado ou que a Bolsonaro esteja a custar mais do que esperado para formar uma aliança legislativa pode inviabilizar a recuperação", diz Craig Botham, economista de mercados emergentes na entidade.

É a principal razão pela qual os gestores mostram dúvidas relativamente ao futuro do Brasil. A incapacidade para passar projetos de lei necessários no Congresso. Monier é claro: “Existe uma necessidade urgente de reformas para limitar a dívida, em particular uma reforma de pensões que consideramos crítica para o país”.

Pablo Riveroll, responsável de ações latino-americanas da Schroders, mantêm-se cautelosamente optimista com a bolsa brasileira. “O mercado cota a valorizações atrativas, com um desconto maior que historicamente e que os demais mercados emergentes, tal como um crescimento de lucros superior à média”, recorda. Por outro lado, a médio prazo, da Fidelity posicionam-se negativos relativamente aos fundamentais brasileiros. “Continuamos preocupados com a trajetória dos défices fiscais do país”, explicam.

Dito isto, há razões para estar positivos na economia brasileira. Como assinala Kim Catechis, responsável de mercados emergentes da Martin Currie (filial da Legg Mason), o Brasil e mais concretamente os agricultores do país, são já os claros beneficiários das tarifas alfandegárias norte-americanas sobre as importações chinesas, dado que Pequim está a reconfigurar as suas rotas de fornecimento de produtos agrícolas como represália. “Entretanto, o Brasil tem sido favorecido pelo aumento dos preços do petróleo e das matérias primas, e o endividamento do sector privado encontra-se em níveis muito reduzidos”, defende Catechis.

 

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