BPI Brasil: “O fundo é muito concentrado refletindo as fortes convicções da equipa”


João Caro Sousa e Francisco Oliveira não precisaram de estar sentados no Rio de Janeiro ou em São Paulo para apresentar ao mercado português uma marca notável com o fundo que têm a seu cargo, o BPI Brasil. O produto que em novembro de 2018 incorporou o fundo BPI Brasil Valor, terminou 2019 a destacar-se com a maior rentabilidade em termos absolutos dentro da categoria de multiativos, da APFIPP.

Em entrevista à Funds People, os dois gestores começaram por explicar como é que encurtam a distância entreposta por um oceano. “Passamos o dia a ler sobre o Brasil e a falar com pessoas que estão no Brasil – empresas, analistas, etc – e vamos criando a nossa própria percepção do que se está a passar no país, tanto através de uma análise mais macro, como de uma análise mais qualitativa”, introduz João Caro Sousa.

Flexibilidade

O fundo é “100% flexível”, em que o espetro de investimento pode ir da alocação 100% a ações, até 100% a obrigações, ou até tudo em liquidez, como referem os gestores. O processo de alocação inicial de activos resulta de uma análise top-down seguido de uma análise6 bottom-up, onde os gestores dedicam a maior parte do seu tempo. O processo de investimento parte então da definição do asset allocation que querem para o fundo. Sendo um produto flexível existe uma “grande margem para gerirem o que está a acontecer” no país, e, por isso, serem ágeis a responder. Explicam como: “Se no mercado de ações o upside for maior do que na parte de obrigações, faz sentido ter uma maior percentagem da carteira alocada à parte de ações. No histórico do Brasil nos últimos 10/15 anos a tendência tem sido contrária, ou seja, as bond yields têm vindo a ser mais vantajosas do que os earning yields. Logo, a carteira historicamente tinha menor alocação a ações, tendência esta que tem vindo a mudar nos últimos tempos”. É nesse sentido que os dois gestores enfatizam uma das ideias centrais do produto: “o fundo permite-nos essa flexibilidade de mudar e de nos adaptarmos a um mercado que é muito volátil”.

Tanto ao nível das ações, como das obrigações o fundo acaba por ser muito concentrado, o que reflete as fortes convicções da gestão. “A nossa análise é puramente fundamental, porque passamos a maior parte do nosso tempo a estudar as empresas a fundo: falamos com pessoas chaves dessas empresas, elaboramos os modelos, fazemos análises de cenários, etc.”, contam. Um processo de valuation “clássico”, acaba por culminar na compra e manutenção de uma empresa “durante algum tempo” no portefólio, o que se reflete num “turnover bastante baixo”. Como já referido pelos gestores “estudamos a fundo cada posição. Por isso, nessa análise fundamental, perdemos muito tempo a fazer a seleção de cada ativo”. O facto de não terem um benchmark definido, acrescentam, acaba por ser benéfico nessa convicção em cada posição, factor que foi “a grande razão da overperformance não só do ano passado, mas dos últimos três anos”.

Especificamente no ano passado, a performance attribution do fundo acabou por vir muito do stock picking. Num ano em que o Bovespa valorizou 29,5% em euros, a dupla de gestores conseguiu uma valorização de 44% na parte do portefólio destinada a ações. “Como somos agnósticos, o nosso trabalho é típico de stock picking. Atualmente temos aproximadamente 20 ações, e o top 5 reflete 30% da carteira”, contam.

Em termos macro, os dados fazem com que os gestores se assumam por esta altura “mais optimistas em ações do que obrigações”, principalmente a avaliar pela evolução da taxa selic de 14,25% para 4,5% nos últimos anos. “Existiu no Brasil, devido à queda da taxa selic, uma redução significativa no custo de endividamento das empresas. As empresas para superar a crise tiveram de se agilizar e focar a sua atividade naquilo em que adicionam valor. Com o crescimento da procura, um pequeno efeito nas receitas tem um efeito multiplicador nos lucros”, esclarecem.  

Convicção e ... convicção

O investimento numa ação não pode passar os 10%, e é precisamente com este peso que se encontra a maior posição em carteira. Trata-se da empresa Eneva, uma utility, que demorou a conquistar “o coração” dos gestores. “Tivemos muito tempo para investir na empresa. Tratava-se de uma companhia pouco conhecida e, por isso, conversámos com o CFO e com o investor relations”, relembra Francisco, comentando que é “no espaço das mid caps, com empresas que estão mais esquecidas pelo mercado”, que tentam adicionar valor.

O verdadeiro racional de investimento no país, esclarecem os gestores, vai muito para além do que possa ser lido nos headlines das notícias atuais. Falam daquele que é um “ciclo económico que ainda está numa fase muito inicial”. Para além disso, não esquecem “as reformas económicas que ainda estão a ser desenvolvidas no país, que ainda têm atrasado mais a economia”. O argumento de investimento no Brasil, sintetizam os gestores com entusiasmo, acaba por ser um corolário fácil de chegar: “É um país onde ainda existe muito por fazer!”, concluem.

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