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Boris Johnson, novo primeiro ministro: as reações das gestoras internacionais


Era líder nas apostas e agora é o líder do Reino Unido. Boris Johnson é oficialmente o novo primeiro ministro do país e máximo responsável do Partido Conservador britânico. Jonhson – salvo surpresas políticas – será quem vai guiar o país através da tempestade do Brexit. O que significa o seu mandato para os mercado? As gestoras internacionais analisam a sua vitória.

É, nas palavras de Leigh Himsworth, gestor de ações britânicas na Fidelity Internacional, o fim de uma prolongada disputa pela liderança. Mas irá verdadeiramente mudar algo? Pois, parece que não. Himsworth resume um sentimento geral entre as gestoras: “As opções do novo primeiro ministro em relação ao Brexit continuam a ser mais ou menos as mesmas da sua antecessora”.

O especialista da Fidelity é claro. Com Boris Johnson como primeiro ministro, as opções que o Reino Unido tem são essencialmente as mesmas: um acordo de saída semelhante aquele apresentado por Theresa May, eleições gerais com uma maioria clara do Partido Conservador ou um novo referendo. Também David Lafferty, estratega chefe da Natixis Investment Managers, contempla a opção de novas eleições .

E ainda assim Johnson poderá ser reeleito. Depende, segundo Himsworth, da confiança que tem no seu próprio capital político. “O seu apoio à campanha a favor do Brexit dá-lhe crédito entre o eleitorado mais à direita, enquanto as suas fanfarronices poderão dar-lhe votos dos Trabalhistas favoráveis à saída da UE e a sua bagagem pessoal poderá ajuda-lo a manter o tradicional voto Tory. Mas a pergunta chave é se será capaz de estender o seu encanto mais além do Canal da Mancha”, resume.

Seja como for, ter Boris Johnson à frente das negociações desequilibrou a balança. Esty Dwek, responsável de estratégia de mercados globais da equipa de Dynamic Solutions da Natixis IM, continua a ver um soft Brexit. Isto é, que se aprove uma versão do acordo de Theresa May depois de um longo período de transição. Mas também não nos devemos esquecer que Johnson foi explícito na sua defesa de um Brexit sem acordo no próximo dia 21 de outubro. Dwek mantém o otimismo já que o Parlamento Britânico já o tinha bloqueado uma vez e poderá voltar a fazê-lo. Também pode ser uma tática para conseguir mais concessões por parte da União Europeia.

Do primeiro discurso de Johnson, David Page, economista sénior da AXA Investment Managers, realça três detalhes: “Comprometeu-se a materializar o Brexit a 31 de outubro, aconteça o que acontecer, conseguindo um acordo sem necessidade de ativar a salvaguarda da fronteira irlandesa (Irish backstop) e, admitindo também que é uma possibilidade, uma entre um milhão, a de deixar a UE sem nenhum acordo”.

Mas para Page estas tratam-se de afirmações inconsistentes. De momento, parece muito provável que se estenda pela enésima vez a data limite para a saída do Reino da Unido da UE. E não é só algo defendido por Page. Na opinião de Azad Zangana, economista chefe europeu da Schroders, “a promessa radical de Johnson durante a sua campanha simplesmente carece de credibilidade”. E as matemáticas parlamentárias não estão a seu favor. Como resume, o Governo tem uma maioria de apenas dois membros com o Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte (DUP). No entanto, o DUP não apoiará nenhum acordo que assente numa divergência nas normas/regulações entre Irlanda do Norte e Grã Bretanha. “Está claro que não existe maioria a favor do atual acordo de saída, e uma maioria significativa contra a saída sem acordo. Na verdade, esperamos que quem se opõe ao Brexit apresente com êxito moções que obriguem o Governo a solicitar uma prorrogação na ausência de um acordo aprovado pelo Parlamento”, vaticina.

O impacto no mercado britânico

A primeira reação do mercado foi limitada. Talvez porque como recorda Paul O’Connor, responsável de investimentos multiativos na Janus Henderson Investors, era o desenlace que se antecipava. Isto é, que uma parte dos medos pelas ações de Johnson já tinham sido previstas. A incerteza do Brexit já pesa sobre a bolsa britânica e as ações do Reino Unido tiveram saídas relevantes de dinheiro por parte dos investidores globais desde o referendo de 2016. O’Connor relembra também o posicionamento negativo na libra esterlina. A divisa britânica poderá concentrar o grosso da futura volatilidade que vaticina Cunningham. “Há margem para que a libra se deprecie mais, tendo em conta que já perdeu bastante valor nas últimas semanas. Também poderá voltar aos níveis mínimos que marcou justamente depois do referendo de 2016 se nenhuma das partes muda de postura relativamente à negociação do acordo de saída”, vê o especialista da BNY Mellon.

Quanto ao impacto na sua dívida, Tristan Hanson, gestor da equipa de multiativos da M&G, vaticina uma perspetiva pouco lisonjeira para os gilts. Inclusivé se o Banco de Inglaterra cortar as taxas de juro e retomar o programa de expansão quantitiva. “Com base na escassa informação que proporcionou durante a sua campanha, entra a possibilidade de que Johnson trate de conceber um pacote de estímulos económicos financiado através de um maior endividamento do Governo e de uma redução impositiva”, argumenta.

Se repararmos no que refletem os mercados nestes momentos veremos que qualquer via é possível. Segundo interpreta O’Connor, um hard Brexit tem uma probabilidade de 33%. Claro que também se dá 25% de probabilidade a que se cancele diretamente o Brexit. Mas, por outro lado, a possibilidade dessas eleições gerais que comentaram outras gestoras foi crescendo nos últimos meses. “É outra camada mais de incerteza sobre as perspetivas do Reino Unido e outra razão mais para que os investidores globais se mantenham afastados”, resume o especialista da Janus Henderson.

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