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“Bird on the Wire… ”


Quem não conhece “Bird on the Wire”,uma das mais emblemáticas canções de Leonard Cohen? A letra desta canção apela à necessidade de nos libertarmos e de lutarmos contras as amarras da ansiedade e da futilidade, para seguirmos livremente o nosso caminho.

Não podemos afirmar que neste último ano tenha sido intuitivo encontrar um caminho, sobretudo para um gestor de ativos ou para as redes comerciais, que em momentos difíceis tiveram de explicar aos seus clientes aquilo que ninguém ainda via... Tal como na letra desta canção, a sensação que fica no ar, é que não passamos de um pequeno pardal à mercê das intempéries, obrigados a rodopiar constantemente em cima de um arame, sempre com a esperança de não o partirmos, enquanto, escutamos os silvos das balas que raspavam o nosso corpo, disparadas por precoces atiradores furtivos, que sabem sempre tudo depois das coisas sucederem, como câmaras lentas de baixa definição... É verdade que também às vezes nos pomos a jeito, sobretudo, quando arrastamos demasiado alto o nosso canto e esquecemo-nos que já entrámos pela noite dentro e precisamos todos de repousar...

Mas no essencial o que conta verdadeiramente é que nos momentos difíceis não desistimos de traçar um caminho, procurando sempre iluminá-lo com as nossas convicções partilhando a luz possível no meio da noite escura. Ao expormos as nossas convicções, reconfortámos os que pensavam como nós e no limite, obrigámos a uma revisão dos argumentos daqueles que pensavam de forma diferente, e que felizmente estavam enganados.

Mantendo vivo o nosso rumo e procurando fazer uma pequena reflexão sobre todos os artigos que escrevi ao longo deste ano, vale a pena refletirmos em alguns dos temas que ainda ficaram em aberto para 2017.

Em primeiro lugar, quem ainda não levantou voo que se apresse, porque das duas uma, ou o arame vai partir, ou novos atiradores furtivos mais treinados não irão desperdiçar um alvo fácil, uma vez que, agora o campo de visão está mais desimpedido e à vista de todos. Para os que pensam que o pior já passou nos ativos de taxa de juro, não se iludam porque estamos ainda no princípio de uma das mais importantes rotações de ativos a nível global. Não podemos subestimar o impacto da reversão do fenómeno deflacionista e o significado na alteração do mix das políticas económicas, com a saída gradual de cena da política monetária e com a entrada em palco da política fiscal. Esta alteração parece ser a derradeira tentativa de evitar o disruptivo “Helicopter Money” e de garantir a restruturação passiva das dívidas, através da criação de inflação. Neste contexto, os Bancos Centrais vão continuar a fomentar uma acentuada inclinação da curva de rendimentos, incrementando muito devagar as suas taxas de referência e controlando uma excessiva subida das taxas de juro de médio e longo prazo, através da utilização de instrumentos monetárias não convencionais. No final, vamos ter mais inflação, os Estados soberanos vão estar cada vez mais empenhados em incrementar a duração das suas dívidas e muitos investidores não vão suportar o custo de oportunidade de não investirem em ativos reais.

Em segundo lugar, é tempo de não recearmos excessivamente pela mudança. Na Europa, andamos há anos à espera do pior e continuamos sem querer interpretar os ventos de mudança. Um dos pontos mais importantes que emergiu na última reunião do BCE foi a desvinculação da taxa de juro de depósito com o programa de Quantitative Easing. Para aqueles que pretendem continuar a ser um alvo fácil, viram nesta decisão um caso construtivo para o mercado de taxa de juro. Mas na realidade o que o BCE assumiu este ano, foi que já não existe fragmentação financeira, que o crédito fluiu pela economia e ao assegurar na última reunião que o risco de deflação em grande medida já desapareceu, deixou de fazer sentido, prosseguir com uma política de taxa de juro de depósito negativa. Com o processo em curso de normalização das taxas de juro da Reserva Federal Americana e com a forte valorização do dólar via os diferencias de taxas de juro, o BCE ganhou um espaço de manobra único, para iniciar o processo de normalização da sua política de taxa de juro tradicional, sem perturbar excessivamente a ordem natural das coisas, ou melhor, a ordem da economia e dos mercados financeiros. Não se fixem apenas no Tapering em 2017, o NegExit poderá vir a ser bem mais surpreendente…

Em terceiro lugar, para aqueles que aguardam há quase uma década por um restabelecimento da cultura de investimento em ações na Europa e por um desempenho melhor do mercado acionista europeu versus o mercado americano, não desistam agora! Independentemente dos “tropeções” pelos diferentes processos legislativos, o que irá realmente fazer mudar a cabeça do cidadão europeu, é que no final do dia, as suas aplicações rendem zero, mas a inflação já provoca uma erosão visível no seu poder de compra. Por outro lado, se a rotação de ativos é algo que faz sentido ocorrer em termos globais, na Europa é por demais evidente, uma vez que, não há alternativas de investimento e a base de partida é excessivamente baixa e artificialmente distorcida. A verdade é que a durabilidade e a sustentabilidade da recuperação económica começam a infiltrar-se na confiança dos agentes económicos, com uma contínua melhoria das condições de crédito, que se traduzem num positivo credit impulse e numa melhoria do consumo privado. Há que também ter em conta que os resultados agregados das empresas ao fim de quatro anos começaram a crescer, numa altura em que o gap das valorizações do mercado europeu e do mercado americano está em máximos dos últimos anos.

Por fim, em quarto lugar, temos que ter consciência que também não vale a pena querer voar muito alto, uma vez que por entre o frenesim dos tweets, os refluxos de uma digestão difícil do crédito na China e a normalização das expetativas de inflação, a volatilidade não nos vai certamente abandonar. Um dos temas mais importantes de 2017 reside na capacidade de entender a melhor forma de retirar partido do aumento dessa volatilidade e das alterações de correlações entre diferentes classes de ativos, tanto mais porque andámos praticamente uma década hipnotizados com o fenómeno da deflação. A subida das taxas de juro reais já está a expor as fragilidades do ouro, enquanto as correlações entre o dólar e os preços do petróleo e dos metais industriais, inverteram-se nos últimos meses. Também não é certo, que desta feita, as subidas das taxas de juro da FED se correlacionem negativamente com o desempenho dos mercados emergentes, tanto mais que as alternativas de investimento em termos globais são escassas e a idiossincrasia de cada um dos mercados emergentes tem-se tornado cada vez mais relevante.

Em 2016, o que mudou realmente não foi o cenário central de crescimento económico global baixo mas sustentado, o que objetivamente se alterou foi o cenário de risco, que deixou de ser de deflação para passar a ser de estagflação, onde o denominador comum em ambos os cenários , passou a ser o risco de taxa de juro.

Assim, em 2017 temos de continuar a procurar alumiar o caminho, tendo a prudência de repousar de tempos a tempos, evitando a todo o custo pousar de novo em cima do arame. Por isso, nesta quadra iluminada, em que a luz se sobrepõe a tudo o resto, não podemos deixar de prestar homenagem a todos aqueles que sempre a souberam trazer dentro de si.

There is a crack in everything, that’s how the light gets in…”- Leonard Cohen

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