BES: caso prático para a estabilidade dos preços das titularizações de ativos na Europa


A evolução do caso Banco Espírito Santo (BES) – desde as primeiras notícias sobre irregularidades financeiras do mês de maio até que começou o resgate da entidade portuguesa em agosto – oferece conclusões interessantes para o mercado europeu de titularizações de ativos (ABS nas siglas em inglês).

Embora, em geral, os preços das ABS de primeira linha se tenham mantido relativamente estáveis nos principais países europeus desde o início da recuperação do mercado após o colapso do Lehman Brothers, os títulos garantidos por créditos hipotecários residenciais (RMBS nas siglas em inglês) dos países periféricos foram vítimas de uma maior volatilidade, quando expostos a crescentes dificuldades macroeconómicas ou inerentes aos seus respetivos mercados.

Em termos gerais, a volatilidade tem sofrido uma marcada queda durante o último ano e as vicissitudes que experimentou a entidade portuguesa oferecem conclusões acerca de se o preço de determinados valores pode manter a sua resistência durante um período em que o banco emissor está a passar por grandes dificuldades financeiras. Assim, é dado um exemplo sobre a relação entre estes acontecimentos e o comportamento dos preços das obrigações de empresas, que foram expostos aos mesmos problemas.

Quando vieram a público as primeiras notícias sobre os problemas do BES, as titularizações de ativos (ABS) emitidas pela entidade portuguesa (como a emissão de títulos hipotecários LUSI 4 A) estavam a negociar a 91. O seu preço nunca experimentou uma queda superior a 1 ponto a partir do referido nível e, na atualidade, mantêm-se aproximadamente na mesma cotação.

Antes do anúncio de resgate que aconteceu em agosto, as obrigações sénior sem garantias do BES caíram cerca de 15 pontos, enquanto que a queda das obrigações subordinadas foi de aproximadamente 70 pontos. Depois do anúncio de resgate, quando já estava claro que essas mesmas obrigações sénior se tinham convertido em obrigações do “novo banco”, enquanto as obrigações subordinadas permaneceriam no banco mau, as primeiras recuperaram 8 pontos, ao passo que estas últimas caíram para um preço próximo de 15.

Não se pode no entanto assegurar com certeza qual teria sido o impacto nos preços se o resgate não se tivesse consumado. A verdade é que as obrigações sénior parecem ter beneficiado em grande medida da decisão de transferir toda a dívida sénior para o “Novo Banco”. Os títulos hipotecários do BES poderiam ter caído um pouco mais,  no entanto, tendo em conta a pouca exposição direta ao BES, seria de esperar que qualquer queda que os seus preços experimentassem fosse consideravelmente inferior à sentida pela dívida sénior e subordinada do banco.

Desta forma, uma vez que a nova normativa sobre resgates com participação do sector privado entra em vigor em 2016 (que facilitará a amortização obrigatória de obrigações sénior sem garantia para contribuir para a recapitalização dos bancos com problemas financeiros) acreditamos que as possibilidades de que as titularizações de ativos batam em rentabilidade a dívida, tanto sénior como subordinada, em situações similares, serão no entanto maiores. É possível que as consequências para os investidores de titularizações de ativos, face aqueles que investem em dívida sénior e subordinada, sejam semelhantes às da situação ocorrida durante os problemas financeiros e durante a reestruturação do banco britânico Co-Op em 2013, o que supõe, por isso, outra prova determinante para esta classe de ativos.

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