Bert Flossbach: “A dívida é um caminho sem retorno. Não há volta atrás para os bancos centrais”


A dívida aumentou em todo o mundo desde o fim da crise financeira, ainda que de forma muito distinta e por diversas razões. O baixo nível das taxas de juro faz com que o serviço da dívida seja gerível. Apesar de representar um risco latente e não iminente para o sistema financeiro, Bert Flossbach, cofundador da Flossbach von Storch, considera que provoca desaceleração do crescimento económico. “Isto acontece particularmente na China, cuja dívida quase duplicou, de 143% do PIB em 2008 para 265%”.

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Este crescimento que gera esse aumento de dívida diminuiu significativamente do seu ponto de vista mais elevado, antes da crise financeira. Em 2008, o PIB aumentou 0,8 yuanes por cada yuan de dívida adicional, enquanto em 2018, o aumento foi de apenas 0,4 yuanes. “Isto também sugere que as taxas de crescimento da China vão continuar a diminuir, ainda que se mantenham num nível relativamente alto”.

Segundo Flossbach, enquanto o dinheiro estiver disponível quase sem custo, a austeridade dos governos será limitada como o demonstra o grande défice dos governos dos Estados Unidos de 5,6% do PIB em 2019. “O envelhecimento da população em conjunto com a reforma dos baby boomers representa uma importante carga financeira especialmente para a Europa. O aumento da contribuição dos trabalhadores e das empresas reduzirá os lucros disponíveis e aumentará o custo da mão de obra durante a próxima década. O constante aumento de pensões do governo repercutirá num aumento do défice orçamental e da dívida nacional”.

O governo alemão já gasta em pensões mais 100.000 milhões de euros por ano, o que é o mesmo que, cerca de 30% do orçamento federal (ver gráfico). Neste sentido, o crescente número de votantes reformados reduz a disposição do governo para tornar o sistema atual de pensões sustentável.

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“No fim desta década, no limite, o grau de dependência das taxas de juro baixas será claro, já que cada vez mais pessoas se vão dar conta de que não há volta a dar para os bancos centrais (o que, na realidade, já é óbvio atualmente). Então faz falta aplicar medidas excecionais, como o cancelamento da dívida nacional a favor dos bancos centrais, para voltar a ajustar os índices de dívida. Não obstante, isto também vai debilitar a confiança no valor da moeda e, devido às taxas de juro reais negativas, poderá até conduzir a um auge temporário dos gastos e a uma fuga para ativos reais”, augura.

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