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BCE reativa o QE e baixa taxas: primeira reações das gestoras internacionais


O Banco Central Europeu passou à ação. Após meses de mensagens dovish aos mercados, a reunião de setembro trouxe uma bateria de estímulos monetários. Em suma, haverá mais quantitative easing e a taxa de depósito baixa 10 pontos base, para -50%. E as expectativas estavam altas. Qualquer coisa abaixo do anunciado tinha-se interpretado como um tom hawkish. Mas Mario Draghi cumpriu o que os investidores esperavam. O presidente da entidade monetária cumprirá o seu mandato durante o próximo mês sem ter conseguido nenhuma subida de taxas.

Os mercados só tiveram de esperar nove meses desde o fim do anterior QE. Este novo pacote de liquidez contempla a compra de ativos líquidos no valor de 20.000 milhões de euros mensais. Além da promessa de que durará “o tempo que for necessário”. A descida na taxa de depósito é acompanhada por um sistema escalonado de remuneração das reservas, destinado a reduzir o impacto das taxas negativas na rentabilidade do setor bancário. Parte do excesso de reservas serà pago a 0% e o restante a -0,5%.

Que leitura têm estas medidas

Que implicações tem? Segundo Rosie McMellin, gestora de obrigações da Fidelity International, temos QE até que o BCE comece a subir as taxas. Porque como recorda, Draghi afirmou que as taxas vão manter-se nos níveis atuais ou mais baixos até que a perspetiva de uma inflação “robusta” convirja a um nível “próximo, mas inferior aos 2% no seu horizonte de projeção”. Isto levará os ativos totais do BCE mais além do nível atual de 2,5 biliões de euros. Philippe Warchter, economista chefe da Ostrum AM (parte da Natixis IM), concorda. Se se tiver em conta as previsões do próprio BCE, a inflação em 2021 estará nos 1,5%. Isto significa que as taxas a curto prazo continuarão onde estão até pelo menos 2022.

O sistema escalonado de remuneração – o tiering, em inglês – também é uma medida chave. E explica porque os bancos não estão a sofrer tanto nos mercados no dia de hoje. “Considerando que os bancos mantêm cerca de 1,86 biliões de euros em liquidez em excesso junto do BCE, o custo direto para a indústria bancária do corte da taxa de depósito de 10 ponto base, sem escalonamento, ascende a 1.860 milhões de euros por ano”, conta McMellin. “Além disso, ajustaram o novo programa de TLTRO III, ao reduzir a taxa mais baixa possível para que os bancos se alinhem com a taxa de depósito, enquanto que anteriormente tinha indicado que as taxas estariam 10 pontos base acima das taxas de depósito. A maturidade das novas operações TLTRO serão agora de três anos em lugar de dois”, resume. Waechter concorda que esta é uma medida positiva para o sector bancário. “Pode significar que para os bancos com excesso de liquidez seja mais interessante dar crédito e colocar estes empréstimos na parte das reservas em excesso”.

A reunião de setembro deixa sensações que já se esperavam. Draghi colocou sobre a mesa um amplo leque de medidas para tentar reativar a economia europeia. Mas por outro lado, era o mínimo que descontavam os investidores. “À primeira vista o pacote poderá parecer decepcionante, mas com o BCE a estender a orientação para o futuro e deixando em aberto o final do QE, esta seria uma conclusão incorreta”, defende McMellin. “Não se pode dizer que o BCE recorreu à sua arma mais letal nesta questão, dado que, principalmente a inflação e as expectativas de inflação não se encontram o suficientemente perto do objetivo de 2%. Por seu lado, usou as restantes pequenas armas que tinha à sua disposição e que, no total, somam mais do que a sua maior arma”, acrescentam da Western Asset, filial da Legg Mason.

Outros, como Paul Diggle, economista sénior da Aberdeen Standard Investments, continuam a pensar que o BCE terá que fazer mais com o tempo, incluindo cortes ainda mais profundos nas taxas de juro. Também confia nisso Andrew Wilson, CEO da Goldman Sachs AM para EMEA: “Acreditamos que a introdução de um sistema de dois níveis de penalização com taxas negativas de reservas bancárias pode permitir cortes adicionais se a inflação e, o mais importante, se as expetativas de inflação se mantiverem baixas

Os investidores agora olham para o que fará Lagarde

Esta reunião foi a penúltima de Mario Draghi à frente do Banco Central Europeu. Assim, nao se estranha o tom de transição, pensando num contexto cómodo para a entrada de Christine Lagarde. “Perante as crescentes dúvidas entre numerosos líderes bancários europeus acerca dos planos de Mario Draghi, o BCE se equivocaría ao realizar uma rotação drástica na sua política, visto que a nova presidente assumirá o cargo a 1 de novembro. Esta reunião marca a pauta para Lagarde, já que lhe seria praticamente impossível dar marcha atrás, algo que confundiría e espantaría os investidores”, analisa Aaron Anderson, vice-presidente sénior de análise de Fisher Investments.

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