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Banca: futuro algo incerto


O setor bancário português enfrenta ainda problemas derivados do resgate do país em 2011 e da elevada alavancagem (endividamento) da economia portuguesa (Estado, empresas e famílias) e das próprias instituições financeiras no período anterior a 2007.

Segundos dados da Associação Portuguesa de Bancos, em abril de 2017 existiam 157 instituições de crédito: 65 bancos, 88 Caixas de Crédito Agrícola Mútuo e 4 Caixas Económicas. Em dezembro de 2016, o setor empregava 47.136 colaboradores em Portugal e 1.499 na atividade internacional que se distribuíam por 4.739 balcões em Portugal e 167 balcões na atividade internacional e respetivos serviços centrais.

Em dezembro de 2007 (há 10 anos), o setor possuía 5.518 balcões e empregava 56.234 colaboradores. O número de colaboradores por balcão era há dez anos de 10. Entre 2007 e 2016, o setor viu diminuir em 13,6% o número de colaboradores e em 11,1% o número de balcões.

No final de 2016, o setor possuía 245,4 mil milhões € em depósitos (162,4 mil milhões € em dez. 2007), os empréstimos a clientes ascendiam a 234,3 mil milhões de euros (255,5 mil milhões € em dez. 2007), o ativo total era de 386 mil milhões de euros (404,8 mil milhões € em dez. 2007), apresentava um rácio de solvibilidade de 12,3% (9,1% em dez. 2007) e um rácio common equity Tier 1 de 11,4%.

O ciclo prolongado de taxas de juro baixas e o processo de desalavancagem dos últimos anos, teve reflexos no volume de crédito concedido com as inevitáveis consequências negativas no valor da margem financeira e do produto bancário.

A crise económica elevou de forma significativa o valor do crédito malparado e a necessidade de um elevado esforço de provisionamento, com impacto negativo na rendibilidade dos bancos em geral.

Os bancos tiveram necessidade de se reestruturar e esse processo passou e vai continuar a passar pela redução de balcões e de colaboradores. Os bancos em períodos de magras margens financeiras, têm de oferecer produtos com o mínimo custo operativo, pelo que a tendência será cada vez mais a aposta nos novos canais: telefone e principalmente internet.

Como consequência da crise financeira, passamos do 8 ao 80 em termos de supervisão e controlo. O novo quadro de regras de Basileia e da Mifid/Dmif, obriga os bancos a um volume de reportes sem precedentes e que tem obrigado a fazer crescer essas áreas.

Áreas como o controlo de gestão, o reporting, o compliance pesam cada vez mais na estrutura organizacional dos bancos, assim como as áreas de contencioso, recuperação de crédito e controlo de risco. Os bancos e demais instituições financeiras de menor dimensão são os que mais sofrem, pois têm que realizar os mesmos reportes que os bancos grandes, possuindo uma estrutura organizacional bastante mais limitada.

Os bancos vivem num ambiente que ainda não é o mais saudável para o crescimento dos negócios, devido às limitações da economia e a um investimento abaixo do desejado. Por outro lado, enfrentam um nível de exigência cada vez maior, em alguns casos exagerado, quando estamos a falar de instituições de reduzida dimensão e com peso reduzido em termos de risco sistémico. Esta situação também se repercute negativamente nos custos de estrutura e na performance.

Outra questão bastante importante é o grande atraso na resolução dos problemas da banca (capitais próprios adequados e crédito malparado), que afetam a dinâmica económica e o crescimento do crédito às empresas.

E no futuro, os depósitos das pessoas continuarão garantidos nas atuais condições ou vai haver mudanças/surpresas?

Os próximos anos não vão ser fáceis e a persistir este ciclo de baixas taxas de juro, a situação vai obrigar a muita imaginação do lado dos proveitos e principalmente do lado do corte de custos.

Finalmente, vejo alguns sinais idênticos aos que nos levaram à crise iniciada em 2007: as bolsas estão em máximos, o crédito ao consumo a aumentar (ao contrário do crédito às empresas) devido a uma certa euforia dos consumidores e algumas bolhas de ativos financeiros e reais a iniciarem a sua formação. Quando o BCE parar a compra de ativos financeiros e as taxas de juro começarem a subir, os efeitos poderão ser complicados de gerir.

Devia ser sobre isto que os políticos de Bruxelas e os governos, em especial dos países resgatados, já deviam estar a trabalhar, mas…

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