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Balanço dos oito anos de Draghi: o legado do salvador do euro


Com uma profunda divisão interna no conselho, taxas de juro ancoradas em negativo e uma inflação adormecida, Mario Draghi põe fim à sua etapa à frente do Banco Central Europeu. Despede-se como o primeiro banqueiro central a ser incapaz de subir as taxas em todo o seu mandato, mas também como o artífice do discurso que evitou o colapso da zona euro.

“Não foi perfeito, mas foi o melhor que já tivemos”, defende Jim Leaviss, chefe de obrigações da M&G. Enquanto o seu antecessor ficou para a história como o responsável pelo maior erro na política monetária do BCE (Jean-Claude Junker subiu as taxas de juro em plena crise financeira), Mario Draghi deixará uma memória agradável. “Num mundo em que os políticos se negaram a salvar a união monetária através da redistribuição do orçamento, fez o que era necessário”, afirma Leaviss.

Certamente o contexto no qual teve de atuar não foi o mais agradável, e não só pela grave crise económica. As primeiras medidas de flexibilização quantitativa – o QE – e as restantes medidas excecionais apresentaram-se perante o mercado com uma grande oposição política. Especialmente em países como a Alemanha. “Essencialmente apagou o fogo que ameaçava destruir a União Monetária Europeia”, assegura Francis Scotland, responsável global de estratégia macroeconómica de Brandywine Global, filial da Legg Mason. “Quando os burocratas da Europa estavam a "tirar sangue" através da austeridade e alguns dos seus colegas estavam obcecados com os fantasmas da inflação, as políticas de Draghi salvaram a economia. Salvou milhares de postos de trabalho e criou mais uns milhares”, sentencia.

Uma reticência semelhante à que o acompanha na sua última reunião à frente do BCE. “Deixa o cargo com profundas divisões entre os membros que formam o seu conselho. As últimas medidas de estímulo anunciadas não foram suportadas por todos e os meios de comunicação fizeram eco disso”, conta Juan Ramón Casanovas, responsável de Private Portfolio Management do Bank Degroof Petercam Spain. Didier Saint-Georges, Managing Director e membro do Comité Estratégico de Investimento da Carmignac, também o vê como uma mancha no seu legado: “A maior frustração de Draghi deve ser que nunca chegou a convencer a Europa para realizar as reformas suficientes, nem no plano económico, nem no institucional”.

Mas ainda que o seu último QE tenha recebido opiniões mistas, para Esty Dwek, responsável de estratégia global na Dynamic Solutions (Natixis IM), o seu legado será um de federação e apoio. Philipp Vorndran, estratega da Flossbach von Storch, coincide: “Conseguiu alcançar o que os políticos foram incapazes no seu momento, dar confiança aos investidores e manter a zona euro unida". 

Oito anos de criatividade monetária

Mario Draghi, efetivamente, fez o que foi necessário para preservar o euro. E quem confiou na sua defesa de que seria suficiente, colheram anos de bonança nos mercados. Para Gabriel Ximénez de Embún, responsável de investimentos na Credit Suisse Gestión, um dos principais motivos do seu sucesso foi a forma na como comunicou as suas mensagens. Mas como relembra Mondher Betteieb, diretor de crédito da Vontobel AM, “só foram o princípio da obra”.

A primeira medida do seu mandato foi o programa Outright Monetary Transactions (OMT) que permitia a compra de obrigações soberanas para permitir que os governos dos países que tinham pedido ajuda através do Fundo Europeu de Estabilidade pudessem financiar-se. “Só por este ato, a sua presidência deve considerar-se um sucesso”, afirma Paul Diggle, economia sénior da Aberdeen Standard Investments. De seguida vieram os programas LTRO, uma das decisões mais importantes de Draghi, na opinião de Battaieb, já que garantiu que os bancos podiam refinanciar-se com taxas realmente baixas, algo muito positivo para o sistema financeiro e para os bancos europeus.

E é preciso recordar o contexto em que tomou estas medidas. Em 2011 a Europa estava a pagar pelos excessos no imobiliário, na banca e nas finanças. O crescimento caía enquanto os países punham em marcha uma bateria de dolorosas medidas de austeridade.

“O seu legado é a sobrevivência do euro na sua prova mais dura até à data graças ao uso de medidas até ao momento um anátema para um banco central influenciado em tradições do Bundesbank”, afirma Nick Wall, gestor da Merian Global Investors. É uma das façanhas de Draghi de que as pessoas menos se lembram. A de capitanear uma mudança na forma de entender a política monetária do BCE. “Ele herdou um banco central influenciado pela aproximação disciplinar dos 80 e 90 e aproximou-o do modelo da FED. Eliminou os tiques intelectuais e trouxe transparência à política”, explica Gilles Moëc, economista chefe da AXA Investment Managers.

Nem tudo são elogios para a figura do banqueiro italiano. A sua política monetária flexível, tão necessária para os mercados, também gerou graves efeitos secundários. Como recorda William J. Adams, CIO de Obrigações da MFS Investment Management, os aforradores e reformados associam-se ao abismo dos planos de aforro inaceitáveis e a pressão cresce com os desequilíbrio na riqueza.

Mas quanta dessa responsabilidade caiu sobre Draghi é debatível. “Ele comprou aos governos o tempo necessário para iniciar reformas dolorosas, mas estruturais. O facto de que os governos não o utilizaram não é culpa sua”, assegura Wall. O seu mandato no BCE foi bom; o dos políticos não. “Mario Draghi será recordado como um grande economista, um grande europeu e uma grande figura histórica italiana. Agora é o momento de Christine Lagarde”, conclui Sebastien Galy, responsável sénior de estratégia macroeconómica na Nordea AM.

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